domingo, 30 de setembro de 2007

O amor (Arthur da Távora)

Aos casados há muito tempo,
Aos que não casaram,
Aos que vão casar,
Aos que acabaram de casar,
Aos que pensam em se separar,
Aos que estão juntos, amigados, colados,
Aos que acabaram de se separar.
Aos que pensam em voltar...

Por mais que o poder e o dinheiro tenham conquistado uma ótima posição no ranking das virtudes, o amor ainda lidera com folga. Tudo o que todos querem é amar.

Encontrar alguém que faça bater forte o coração e justifique loucuras. Que nos faça entrar em transe, cair de quatro, babar na gravata. Que nos faça revirar os olhos, rir à toa, cantarolar dentro de um ônibus lotado.

Tem algum médico, aí?

Depois que acaba esta paixão retumbante, sobra o que? O amor. Mas não o amor mistificado, que muitos julgam ter o poder de fazer levitar. O que sobra é o amor que todos conhecemos: o sentimento que temos por mãe, pai, irmão, filho.

É tudo o mesmo amor, só que entre amantes existe sexo. Não existem vários tipos de amor, assim como não existem três tipos de saudades, quatro de ódio, seis espécies de inveja. O amor é único, como qualquer sentimento, seja ele destinado a familiares, ao cônjuge ou a Deus.

A diferença é que, como entre marido e mulher não há laços de sangue, a sedução tem que ser ininterrupta...

Por não haver nenhuma garantia de durabilidade, qualquer alteração no tom de voz nos fragiliza, e de cobrança em cobrança, acabamos por sepultar uma relação que poderia ser eterna.

Casaram. Te amo pra lá, te amo pra cá. Lindo, mas insustentável. O sucesso de um casamento exige mais do que declarações românticas. Entre duas pessoas que resolvem dividir o mesmo teto, tem que haver muito mais do que amor, e às vezes, nem necessita de um amor tão intenso. É preciso que haja, antes de mais nada, respeito. Agressões zero.

Disposição para ouvir argumentos alheios. Alguma paciência... Amor só, não basta. Não pode haver competição. Nem comparações. Tem que ter jogo de cintura, para acatar regras que não foram previamente combinadas. Tem que haver bom humor para enfrentar imprevistos, acessos de carência, infantilidades. Tem que saber levar.

Amar só é pouco. Tem que haver inteligência. Um cérebro programado para enfrentar tensões pré-menstruais, rejeições, demissões inesperadas, contas para pagar. Tem que ter disciplina para educar filhos, dar exemplo, não gritar. Tem que ter um bom psiquiatra. Não adianta, apenas, amar.

Entre casais que se unem, visando à longevidade do matrimônio, tem que haver um pouco de silêncio, amigos de infância, vida própria, um tempo pra cada um. Tem que haver confiança. Certa camaradagem, às vezes fingir que não viu, fazer de conta que não escutou. É preciso entender que união não significa, necessariamente, fusão. E que amar "solamente", não basta.

Entre homens e mulheres que acham que o amor é só poesia, tem que haver discernimento, pé no chão, racionalidade. Tem que saber que o amor pode ser bom, pode durar para sempre, mas que sozinho não dá conta do recado.

O amor é grande, mas não são dois. Tem que saber se aquele amor faz bem ou não, se não fizer bem, não é amor. É preciso convocar uma turma de sentimentos para amparar esse amor que carrega o ônus da onipotência. O amor até pode nos bastar, mas ele próprio não se basta.

Um bom amor aos que já têm!
Um bom encontro aos que procuram!
E felicidades a todos nós!

domingo, 23 de setembro de 2007

Citações (Mahatma Gandhi)

“A experiência ensinou-me que o silêncio faz parte da disciplina espiritual de um seguidor da verdade. A tendência a exagerar, a eliminar ou modificar a verdade, consciente ou inconscientemente, é uma fraqueza natural do homem. Para vencê-la é necessário o silêncio. Um homem de poucas palavras dificilmente será leviano nas suas conversas: medirá as palavras”.

“Aqueles que têm um grande autocontrole, ou que estão totalmente absortos no trabalho, falam pouco. Palavra e ação juntas não estão bem. Repare na natureza: trabalha continuamente, mas em silêncio”.

“Odeio o privilégio e o monopólio. Para mim, tudo o que não pode ser dividido com as multidões é tabu”.

“Não posso imaginar uma época em que nenhum homem seja mais rico que o outro. Mas imagino uma época em que os ricos terão vergonha de enriquecer à custa dos pobres e os pobres deixarão de invejar os ricos. Nem no mundo mais perfeito conseguiremos evitar as desigualdades, mas podemos e devemos evitar a luta e o rancor. Já temos agora muitos exemplos de ricos e pobres que vivem em perfeita harmonia. Devemos só multiplicar esses exemplos”.

“Não creio que os capitalistas e donos de terras sejam todos exploradores por necessidade intrínseca ou por existir um antagonismo irreconciliável entre os interesses deles e os interesses das massas. Toda a exploração tem como base colaboração, voluntária ou forçada, do explorado. Embora nos repugne admiti-lo, a verdade é que não existiria exploração se as pessoas se negassem a obedecer ao explorador. Mas eis que intervém o interesse, e abraçamos os cadeados que nos atam. Isso deve terminar. A grande necessidade não está em acabar com os capitalistas e os proprietários de terras, mas em transformar numa coisa mais pura e sã as relações existentes entre eles e as massas”.

“A desobediência civil é um direito intrínseco do cidadão. Não ouse renunciar, se não quer deixar de ser homem. A desobediência civil nunca é seguida pela anarquia. Só a desobediência criminal leva à anarquia. Todos os Estados reprimem a desobediência criminal com a força. Reprimir a desobediência civil é tentar encarcerar a consciência”.

“A verdadeira fonte dos direitos é o dever. Se cumprimos os nossos deveres, não precisamos ir longe procurar os direitos. Se não cumprimos os deveres e buscamos os direitos, estes nos fugirão como quimeras. Quanto mais lhes corremos atrás, tanto mais eles se afastam”.

“Acredito na essencial unidade do homem, e portanto na unidade de todo o que vive. Por conseguinte, se um homem progredir espiritualmente, o mundo inteiro progride com ele, e se um homem cai, o mundo inteiro cai em igual medida”.

“Uma civilização é julgada pelo tratamento que dispensa às minorias”.

“Não desejo morrer pela parálise progressiva das minhas faculdades, como um homem vencido. A bala de um assassino poderia pôr fim à minha vida. Acolhê-la-ia com alegria”.

“Nunca perca a fé na humanidade, pois ela é como um oceano. Só porque existem algumas gotas de água suja nele, não quer dizer que ele esteja sujo por completo”.

“Um ideal custa uma vida, mas vale a eternidade”.

“A alegria está na luta, na tentativa, no sofrimento envolvido e não na vitória propriamente dita”.

“O meu patriotismo não é exclusivo. Engloba tudo. Eu repudiaria o patriotismo que procurasse apoio na miséria ou na exploração de outras nações. O patriotismo que eu concebo não vale nada se não se conciliar sempre, sem exceções, com o maior bem e a paz de toda a humanidade”.

domingo, 16 de setembro de 2007

Certezas (Mário Quintana)

Não quero alguém que morra de amor por mim...
Só preciso de alguém que viva por mim,
que queira estar junto de mim, me abraçando.

Não exijo que esse alguém me ame como eu o amo,
quero apenas que me ame,
não me importando com que intensidade.

Não tenho a pretensão de que todas as pessoas que gosto, gostem de mim...
Nem que eu faça a falta que elas me fazem.
O importante pra mim é saber que eu,
em algum momento, fui insubstituível...

E que esse momento será inesquecível...
Só quero que meu sentimento seja valorizado.
Quero sempre poder ter um sorriso estampando meu rosto,
mesmo quando a situação não for muito alegre...

E que esse meu sorriso consiga transmitir paz para os que estiverem ao meu redor.
Quero poder fechar meus olhos e imaginar alguém...
e poder ter a absoluta certeza de que esse alguém também pensa em mim quando fecha os olhos,
que faço falta quando não estou por perto.

Queria ter a certeza de que apesar de minhas renúncias e loucuras, alguém
me valoriza pelo que sou, não pelo que tenho...
Que me veja como um ser humano completo, que abusa demais dos bons sentimentos que a vida lhe proporciona,
que dê valor ao que realmente importa, que é meu sentimento..
e não brinque com ele.

E que esse alguém me peça para que eu nunca mude,
para que eu nunca cresça, para que eu seja sempre eu mesmo.

Não quero brigar com o mundo, mas se um dia isso acontecer,
quero ter forças suficientes para mostrar a ele que o amor existe...
Que ele é superior ao ódio e ao rancor,
e que não existe vitória sem humildade e paz.

Quero poder acreditar que mesmo se hoje eu fracassar,
amanhã será outro dia,
e se eu não desistir dos meus sonhos e propósitos,
talvez obterei êxito e serei plenamente feliz.

Que eu nunca deixe minha esperança ser abalada por palavras pessimistas...
Que a esperança nunca me pareça um "não" que a gente teima em maquiá-lo de verde e entendê-lo como "sim".

Quero poder ter a liberdade de dizer o que sinto a uma pessoa,
de poder dizer a alguém o quanto é especial e importante pra mim,
sem ter de me preocupar com terceiros...

Sem correr o risco de ferir uma ou mais pessoas com esse sentimento.
Quero, um dia, poder dizer às pessoas que nada foi em vão...
que o amor existe, que vale a pena se doar às amizades e às pessoas, que a vida é bela sim, e que eu sempre dei o melhor de mim...

E que valeu a pena!

domingo, 9 de setembro de 2007

Aprender (William Shakespeare)

Depois de algum tempo você aprende a diferença, a sutil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma.

E você aprende que amar não significa apoiar-se e que companhia nem sempre significa segurança.

E começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança.

E aprende a construir todas as suas estradas no hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão.

Depois de um tempo você aprende que o sol queima se você ficar exposto por muito tempo.

E aprende que não importa o quanto você se importe, algumas pessoas simplesmente não se importam...

E aceita que não importa o quão boa seja uma pessoa, ela vai feri-lo de vez em quando...

Aprende que falar pode aliviar dores emocionais.

Descobre que se leva um certo tempo para construir confiança e apenas segundos para destruí-la.

E que você pode fazer coisas em um instante, das quais se arrependerá pelo resto da vida.

Aprende que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias.

E o que importa não é o que você tem na vida, mas quem você tem na vida.

E que bons amigos são a família que nos permitiram escolher.

Aprende que não temos que mudar de amigos se compreendermos que os amigos mudam. Percebe que você e seu melhor amigo podem fazer qualquer coisa, ou nada, e terem bons momentos juntos.

Descobre que as pessoas com quem você mais se importa na vida são tomadas de você muito depressa... Por isso, sempre devemos deixar as pessoas que amamos com palavras amorosas, pode ser a última vez que as vejamos.

Aprende que as circunstâncias e os ambientes têm influência sobre nós, mas nós somos responsáveis por nós mesmos.

Começa a aprender que não se deve comparar com os outros, mas com o melhor que pode ser, e que o tempo é curto.

Aprende que não importa onde já chegou, mas aonde está indo. Mas se você não sabe para onde está indo, qualquer lugar serve.

Aprende que ou você controla seus atos ou eles o controlarão, e que ser flexível não significa ser fraco ou não ter personalidade, pois não importa o quão delicada e frágil seja uma situação, sempre existem dois lados.

Aprende que os heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer, enfrentando as conseqüências.

Aprende que paciência requer muita prática. Descobre que, algumas vezes, a pessoa que você espera que o chute quando você cai, é uma das poucas que o ajudam a se levantar.

Aprende que maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência que se teve e o que você aprendeu com elas, do que com quantos aniversários você celebrou.

Aprende que há mais de seus pais em você do que você supunha.

Aprende que nunca deve dizer a uma criança que seus sonhos são bobagens, poucas coisas são tão humilhantes e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso.

Aprende que quando está com raiva tem o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de ser cruel.

Descobre que só porque alguém não o ama do jeito que você quer que ame, não significa que esse alguém não o ama com tudo que pode, pois existem pessoas que nos amam, mas simplesmente não sabem como demonstrar ou viver isso.

Aprende que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém, algumas vezes você tem aprender a perdoar a si mesmo.

Aprende que com a mesma severidade com que julga, você em algum momento será julgado.

Aprende que não importa em quantos pedaços o seu coração foi partido, o mundo não pára para que você o conserte.

Aprende que o tempo não é algo que possa voltar para trás.

Portanto, plante seu jardim e decore sua alma, ao invés de esperar que alguém lhe traga flores.

E você aprende que realmente pode suportar... Que realmente é forte, e que pode ir muito mais longe, depois de pensar que não pode mais.

E que realmente a vida tem valor e que você tem valor diante da vida.

domingo, 2 de setembro de 2007

Brutalidade e dor (Lilian Alves Bertolini)

A primeira impressão que se tem diante das cenas apresentadas nas arenas da festa do rodeio, é a de que o peão está montado um animal xucro, bravio e selvagem. Porém, as pessoas que vivem do rodeio oferecem ao público uma grande farsa, porque os animais utilizados são mansos e dóceis e para que corcoveiem com se fossem bravios são envoltos em vários instrumentos de tortura como, por exemplo, o sedém, tira de couro fortemente presa à virilha do animal. No momento da abertura do brête, o sedém é fortemente puxado, provocando dor por comprimir violentamente a região do órgão genital e intestinal do animal.

Os defensores do rodeio alegam que o sedém provoca apenas cócegas. Cabe aqui, o uso do bom senso. Como algo que comprime fortemente região tão sensível poderia causar dor? Também é necessário esclarecer que, segundo a literatura médica, cócegas é uma sensação nervosa que advém de fricções ligeiras ou leves toques. Portanto, uma compressão violenta como provocada pelo sedém jamais causaria tal sensação.

Bovinos e eqüinos reagem ao sedém não porque sentem cócegas, mas por sofrimento, dor, medo, ira e aflição. Que o sedém provoca dor e tormento é o que atestam os laudos da Faculdade de Medicina na Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo e do Instituto Médico Legal do Rio de Janeiro.

São também utilizadas as esporas para incitar os animais mediante violentos golpes sincronizados e contínuos aplicados no baixo ventre, pescoço e cabeça. Não são os animais esporeados, mas sim golpeados brutalmente por esporas, que acabam por produzir contusões e cortes bastante profundos, chegando, muitas vezes s cegá-los. Não importa se as esporas são pontiagudas ou não. De qualquer forma, elas são aptas a provocar lesões nos animais graças ao fato de que os animais são golpeados com violência pelos peões.

Não bastassem o sedém e as esporas, ainda se utiliza da peiteira que consiste uma corda de couro colocada fortemente em volta do peito do animal, causando-lhe dor e sensação de asfixia. O peão, desde a peça, e, quando é aberta a porteira, a segura com uma das mãos, mantendo a outra livre, de maneira a alcançar o necessário apoio e equilíbrio sobre o dorso do animal. No boi, costuma-se colocar um sino na peiteira, para que, com os movimentos, seja provocado um barulho característico que causa a sensação de medo no animal, alterando, em decorrência, o seu estado emocional com a elevação drástica da adrenalina.

Choques elétricos também são utilizados para estimular os animais a demostrarem comportamento agressivo. São produzidos por sovelas, geralmente momentos antes dos animais deixarem o brête.

Portanto, essa falsa aparência de animal bravio corcoveando e saltando advém da tentativa desesperada de livrar-se dos instrumentos de tortura.

O animal corre de maneira desordenada, sem direção, lutando para fugir dos maus-tratos, quando, não raras vezes, vem a chocar-se contra as grades de proteção da arena.

Além da montaria, outras provas especialmente cruéis e violentas são as provas de laço.

Poucos imaginam o motivo pelo qual o animal penetra a arena correndo velozmente. Ocorre que, bezerros e garrotes são mantidos em pequenos cercados e lá recebem golpes, socos e pontapés, para que, ao abrirem a porteira, corram desesperadamente na tentativa de escapar ao maus-tratos.

Nas laçadas de bezerros são utilizados animais de quarenta dias de idade, apenas. O impacto que recebe o animal ao ser laçado é suficiente para feri-lo gravemente. Há morte instantânea de muitos deles, após a ruptura da medula espinhal. Alguns ficam paralíticos ou sofrem rompimento parcial ou total da traquéia. O resultado de ser atirado violentamente ao chão, tem causado a ruptura de diversos órgãos de diversos órgãos internos, levando o animal a uma morte lenta e agonizante.

Não menos atrozes as laçadas duplas compostas por dois peões. Onde, um laça os chifres de um boi em movimento e o outro laça as pernas traseiras do animal, em seguida os peões esticam o boi entre si, em sentido contrário um do outro, resultado em ligamentos e tendões distendidos, além de músculos machucados.

Laçadores declaram orgulhosamente, que treinam de 06 a 07 horas por dia. Estes treinos não são supervisionados e realizados, na maiorias das vezes, com o mesmo animal, onde vale-tudo.

Na derrubada de boi, modalidade também conhecida como Bulldogging, o peão desmonta de seu cavalo sobre um boi em movimento, devendo derrubá-lo ao chão, agarrando-o pelos chifres e torcendo violentamente seu pescoço. O animal sofre brutal impacto de receber um peão sobre sua coluna e em seguida sofre igual violência ao ter o pescoço tracionado, já que o próprio animal oferece resistência à força que o peão emprega para derrubá-lo ao chão.

Veterinários norte-americanos, com 30 anos de experiência como inspetores da carne da U.S.D.A, declararam à Sociedade Internacional dos Direitos dos Animais que o pessoal dos rodeios manda aos matadouros, animais tão extensivamente machucados que a pele encontra-se solta do corpo, como 02 a 03 galões de sangue livre acumulados debaixo da pelo solta, devido às hemorragias internas. Relatam que há animais com seu ou oito costelas separadas da coluna vertebral, muitas vezes já perfurando os pulmões.

Os rodeios submetem os animais a constantes e sucessivas quedas, das quais podem resultar deste ferimentos e simples contusões até fraturas, entorses, luxações, rupturas musculares, rupturas dos tendões e artrites.

O cavalo que cai após empinar-se arrisca uma fratura da base do crânio podendo sofres morte imediata.

Uma queda sobre a cabeça com o pescoço dobrado pode levar a uma imobilização da medula espinhal, seguida de morte em curto prazo.

Os rodeios com as características que de hoje se revestem, se afastam das tradições mais puras de cultura popular sertaneja, não se caracterizando como manifestação folclórica ou cultural.

Devemos entender por cultura um conjunto de princípios voltados para o aprimoramento das coletividade e não para as práticas que reconduzem o ser humano ao primitivismo e à brutalidade, com os olhos postos no interesse mesquinho do lucro fácil.

Se tal prática mão pode ser aceita como cultura, menos ainda como esporte, porque não se concebe esporte que maltrate o animal.

Todos os cientistas que à luz da ética e da ciência estudaram a fisiologia e a psicologia do animal concluíram que ele é dotado de um sistema nervoso que produz, diante do sofrimento reações iguais as que, em semelhante situação, teria um ser humano.

Além da dor física, os rodeios submetem os animais a sofrimento mental, uma vez que eles possuem capacidade neuropsíquica de avaliar que esse estímulos lhes são agressivos, ou seja, perigosos à sua integridade física. Constrangem o animal a uma prática contra a qual ele se insurge, tanto que se debate como pode e com todas as forças de que dispõe, em movimentos e impulsos contrário à sua mansidão natural.

Não há como equiparar o rodeio à tradição, folclore ou esporte, porque ele flagela o animal, deforma o sentimento dos espectadores e instila no espírito das crianças e adolescentes o sadismo e a insensibilidade pelos seres vivos.

domingo, 26 de agosto de 2007

Ode ao humanismo (Emir Sader)

Agora que o Papa se foi, é boa hora para nos perguntarmos de novo o que significa ser religioso. Quando alguém nos dirige a pergunta, do ponto de vista de alguma religião – Você crê em Deus? – e respondemos que não, automaticamente procuram nos caracterizar como "ateus", com uma conotação negativa, como a do que "não crê", a do "não-crente"; uma ausência, quase um defeito, uma carência. Opondo o religioso ao "descrente". Quase nos olham com pena, com lástima, com piedade, como se olhassem para alguém condenado ao pecado, ao limbo, como a alguém que não conhecesse Deus – ou deus –, que duvidasse de sua inquestionável existência, alguém incapaz de conhecer e gozar das maravilhas da fé, incapaz de ter fé – de onde se pode deduzir: um infiel.

Mas é disso que se trata? O oposto do crente é o sem fé? Crer é somente crer em algum deus? Ser fiel é ser fiel a um deus? Ou, ao contrário, ser religioso, crer em deus – qualquer que ele seja – é não crer no homem (e na mulher), é descrer do homem, é ter a deus e não ao homem como centro do mundo? Em outras palavras, religioso se opõe a humanista e não a infiel, porque significa deslocar o centro do mundo para um outro plano ou ser, que nos criaria e definiria nosso destino e o sentido mesmo das coisas. Daí a interpretação também de qualquer forma de escritura, de texto bíblico, ser revelado ao homem por um ente superior e não ser construído pelo homem.

O que se deixa de lado, ao identificar crença com fidelidade, é o caráter alienado das visões religiosas do mundo e do próprio ato de crer em algum deus. É negar o principio fundamental do humanismo, que dá sentido à história dos homens e das mulheres: o de que os homens fazem sua própria história, mesmo quando não têm consciência disso.

Necessitado de transcendência, o homem cria e recria a religião e seus deuses, seres perfeitos, imortais, referências de valores, extraindo isso de si mesmo, para depois inverter a relação e passar, de criador a criatura, tornando-se dependente e alienado. Esse é o mecanismo pelo qual o humanismo explica a religião.

O homem livre, emancipado, não precisa de deuses, de religião, de fetiches. Ele sabe que a história é feita pelos homens conscientes, desalienados, por meio do seu trabalho. Sabe que a religião é a uma falsa consciência, que aliena o homem, ao invés de dar-lhe consciência.

Um religioso – por exemplo, católico – imputa a deus o que é produto da ação dos homens. Se fosse coerente, um católico deveria ser contra o divórcio, o aborto, os contraceptivos (inclusive os preservativos), ser a favor do celibato, do direito de apenas homens serem sacerdotes, da infalibilidade papal, da proibição dos experimentos científicos com células-tronco etc. Deveria, além disso, obedecer rigidamente a disciplina de uma instituição retrógrada, medieval, obscurantista, como a Igreja Católica.

Felizmente não o fazem, mas isto demonstra que as teses humanistas se chocam com a religião católica. Quem é a igreja católica, instituição totalmente hierárquica e antidemocrática, para dizer que governo é democrático, ditatorial ou autoritário? O que essa igreja e os seus fiéis tem a dizer da sua própria instituição?

É muito positivo que tantos religiosos extraiam valores humanistas da religião para criticar o capitalismo, a exploração, a opressão. Mas isso não permite elevar a religião a cânone de interpretação da realidade dos homens, de sua história, de suas identidades. Esta só é possível com a crítica radical de toda forma de alienação, da qual as distintas formas de religião são as principais expressões.

O respeito pela religião dos outros não deve impedir a crítica das visões religiosas do mundo, do deslocamento que elas produzem do homem como centro do mundo para deuses e outras formas de fetiches.

O humanista se rege por valores éticos, por uma interpretação histórica da vida dos homens e das mulheres, faz a crítica de toda forma de alienação, luta pela emancipação integral dos homens e das mulheres, luta por um presente e um futuro em que não se necessite de entidades supraterrestres para explicar o mundo, mas em que o mundo seja construído transparentemente pelos homens. Que seja, portanto, inteligível para todos, pleno de sentido humano.

Mitos e verdades sobre o ateísmo (Sam Harris)

O termo "ateísmo" tornou-se tão estigmatizado nos EUA que ser ateu virou total impedimento para uma carreira política, por exemplo. Segundo pesquisa da revista Newsweek, apenas 37% dos americanos votariam num ateu para presidente. É normal nos EUA, onde 87% da população diz "nunca duvidar" da existência de Deus e imagina que ateus são intolerantes, imorais e cegos para a beleza da natureza. Em vista disso, é importante derrubar mitos. Este artigo foi publicado originalmente no jornal Los Angeles Times.

IGNORÂNCIA DOS BENEFÍCIOS
Diz-se que os ateus ignoram o fato de que a religião é benéfica para a sociedade. Os que sublinham isso parecem nunca perceber que tais efeitos não conseguem demonstrar a verdade de nenhuma doutrina religiosa. Além disso, na maioria dos casos, parece que a religião dá às pessoas más razões para se comportar bem. O que é mais moral: ajudar os pobres por se preocupar com seu sofrimento ou ajuda-los por acreditar que o Criador quer que você o faça e o recompensará por fazê-lo ou o punirá por não fazê-lo?

SEM BASE MORAL
Alegam que o ateísmo não oferece base para a moralidade. Se uma pessoa ainda não entendeu que a crueldade é errada, não descobrirá isso lendo a Bíblia ou o Alcorão – já que esses livros transbordam de celebrações da crueldade, tanto humana quanto divina. Não tiramos nossa moralidade da religião. Decidimos o que é bom recorrendo a instituições morais embutidas em nós e refinadas por milhares de anos de reflexão sobre as causas e possibilidades da felicidade humana.

NÃO VÊEM O SENTIDO DA VIDA
Pelo contrário: são os religiosos que se preocupam freqüentemente com a falta de sentido da vida e imaginam que ela só pode ser redimida pela promessa da felicidade eterna no além. Os ateus tendem a ser bastante seguros quanto ao valor da vida. A vida é imbuída de sentido ao ser vivida de modo real e completo. Nossas relações com aqueles que amamos têm sentido agora; não precisam durar para sempre para tê-lo.

CULPADOS POR CRIMES
As pessoas de fé alegam com freqüência que crimes de Hitler, Stalin e Mao foram produto inevitável da descrença. Mas o problema do fascismo e do comunismo é que são parecidos demais com religiões. Regimes assim são dogmáticos ao extremo e originam cultos à personalidade indistinguíveis da adoração religiosa. Campos de extermínio não são exemplos do que acontece quando os seres humanos rejeitam o dogma religioso; são exemplos de dogmas político, racial e nacionalista.

ARROGÂNCIA
Quando os cientistas não sabem alguma coisa, eles admitem. Na ciência, fingir saber o que não se sabe é falha grave. Mas isso é o sangue vital da religião. Uma das ironias do discurso religioso é a freqüência com que as pessoas de fé se vangloriam de sua humildade e, ao mesmo tempo, alegam saber fatos sobre cosmologia, química e biologia que nenhum cientista conhece. Quando consideram questões sobre a natureza do cosmos, ateus tendem a buscar suas opiniões na ciência. Isso não é arrogância. É honestidade intelectual.

PAPEL NA CIÊNCIA
Há quem diga que o ateísmo não tem ligação com a ciência. Embora seja possível ser um cientista e ainda acreditar em Deus, não há dúvida de que um envolvimento com o pensamento científico tende a corroer, e não a sustentar, a fé. Tomando a população dos EUA como exemplo: quase 90% do público em geral acredita num Deus pessoal; mas 93% dos membros da Academia Nacional de Ciências não acreditam.

FECHADOS À ESPIRITUALIDADE
Nada impede os ateus de experimentarem o amor, o êxtase, o arrebatamento e o temor. O que eles não tendem a fazer são afirmações injustificadas sobre a natureza da realidade com base nessas experiências. Não há dúvida de que alguns cristãos mudaram suas vidas para melhor lendo a Bíblia e rezando. O que isso prova? Prova que certas regras e códigos de conduta podem exercer um efeito profundo sobre a mente humana. Tais experiências positivas dos cristãos sugerem a existência de Deus? Nem remotamente, uma vez que hindus, budistas, muçulmanos – e até mesmo ateus – vivenciaram experiências similares.

NADA ALÉM DA VIDA
Dizem que, para os ateus, não há nada além da vida e do entendimento humano. Mas é óbvio que não entendemos o universo completamente; e é ainda mais óbvio que nem a Bíblia nem o Alcorão refletem nosso melhor entendimento do universo. Não sabemos se há vida complexa em outro lugar do cosmos, mas pode haver. Se houver, esses seres podem ter desenvolvido uma compreensão das leis da natureza que excede a nossa. Os ateus podem considerar essas possibilidades e admitir que, se existem extraterrestres, os conteúdos da Bíblia e do Alcorão serão para eles pouco impressionantes. Do ponto de vista ateísta, as religiões do mundo banalizam a verdadeira beleza e a verdadeira imensidão do universo. Não é preciso aceitar nada com base em provas insuficientes para fazer tal observação.

DOGMATISMO ATEÍSTA
Religiosos afirmam que suas escrituras só poderiam ter sido registradas sob orientação de uma divindade onisciente. Um ateu é simplesmente alguém que considerou esta afirmação, leu os livros e concluiu que ela é absurda. Não é preciso ser dogmático para rejeitar crenças religiosas injustificadas. Como disse o historiador Stephen Henry Roberts (1901-71): "Afirmo que ambos somos ateus. Apenas acredito num deus a menos que você. Quando você entender por que rejeita todos os outros deuses possíveis, entenderá por que rejeito o seu".

domingo, 19 de agosto de 2007

Os sonhos dos adolescentes (Contardo Calligaris)

Se tivesse que comparar os jovens de hoje com os de dez ou vinte anos atrás, resumiria assim: eles sonham pequeno. É curioso, pois, pelo exemplo de pais, parentes e vizinhos, nossos jovens sabem que sua origem não fecha seu destino: sua vida não tem que acontecer necessariamente no lugar onde nasceram, sua profissão não tem que ser a continuação da de seus pais. Pelo acesso a uma proliferação extraordinária de ficções e informações, eles conhecem uma pluralidade inédita de vidas possíveis.

Apesar disso, em regra, os adolescentes e os pré-adolescentes de hoje têm devaneios sobre seu futuro muito parecidos com a vida da gente: eles sonham com um dia-a-dia que, para nós, adultos, não é sonho algum, mas o resultado (mais ou menos resignado) de compromissos e frustrações. Eles são “razoáveis”: seu sonho é um ajuste entre suas aspirações heróico-ecológicas e as “necessidades” concretas (segurança do emprego, plano de saúde e aposentadoria).

Alguém dirá: melhor lidar com adolescentes tranqüilos do que com rebeldes sem causa, não é? Pode ser, mas, seja qual for a qualidade dos professores, a escola desperta interesse quando carrega consigo uma promessa de futuro: estudem para ter uma vida mais próxima de seus sonhos. É bom que a escola não responda apenas à “dura realidade” do mercado de trabalho, mas também (talvez, sobretudo) aos devaneios de seus estudantes; sem isso, qual seria sua promessa? “Estude para se conformar?” Conseqüência: a escola é sempre desinteressante para quem pára de sonhar.

É possível que, por sua própria presença maciça em nossas telas, as ficções tenham perdido sua função essencial e sejam contempladas não como um repertório arrebatador de vidas possíveis, mas como um caleidoscópio para alegrar os olhos, um simples entretenimento. Os heróis percorrem o mundo matando dragões, defendendo causas e encontrando amores solares, mas eles não nos inspiram: eles nos divertem, enquanto, comportadamente, aspiramos a um churrasco no domingo e uma cerveja com os amigos.

É também possível (sem contradizer a hipótese anterior) que os adultos não saibam mais sonhar muito além de seu nariz. Ora, a capacidade de os adolescentes inventarem seu futuro depende dos sonhos aos quais nós renunciamos. Pode ser que, quando eles procuram, nas entrelinhas de nossas falas, as aspirações das quais desistimos, eles se deparem apenas com versões melhoradas da mesma vida acomodada que, mal ou bem, conseguimos arrumar. Cada época tem os adolescentes que merece.

sábado, 11 de agosto de 2007

O homem profano (Huberto Rohden)

O homem profano não sai do plano horizontal, que se apresenta sob inumeráveis formas – dinheiro, política, prazeres, ambição, comércio, indústria, ciência, arte, filantropia, organização social; joga com fatores meramente quantitativos, de superfície, em que ele vê o “real”, e até a própria “Realidade”, e por isso se considera ele um “realista”; real, solidamente real, é para ele tudo que é objetivo, quantitativo, o que se pode ver, ouvir, tanger, pesar, medir, numerar, tudo que tem forma e cor; irreal é para o profano o resto, o mundo da qualidade, não sujeito a tempo e espaço. Mas, como há certas conveniências e convenções que mandam crer nesse mundo da qualidade intangível, tolera o chamado “realista” os “idealismos” dos que se ocupam com essas coisas “irreais”, hasteia a bandeira da fé à fachada do edifício maciço do seu materialismo; e à sombra dessa bandeira do além realiza ele os interesses do aquém.

Se esse homem soubesse que ele é um grande “irrealista”, e que os chamados “idealistas” é que são os genuínos “realistas”!...

A mais decisiva e arrasadora descoberta que um homem pode fazer na vida presente é convencer-se experiencialmente de que o mundo horizontal, objetivo, das quantidades tangíveis, é um mundo feito de outros tantos zeros – ao passo que o mundo vertical, subjetivo, da qualidade, é com o algarismo “1”, que representa um valor autônomo, e possui, além disso, o estranho poder de valorizar os zeros que se colocarem à sua direita: 1.000.000; mas se colocarmos esses mesmos zeros à esquerda do valor autônomo “1”, este vai perdendo parte do seu valor: 000.000.1.

O homem profano é tão míope ou cego que passa a vida inteira colecionando zeros e, quando acumulou milhões desses lindos zeros, pequenos ou grandes, então se julga seguro, embora não desista jamais de aumentar o seu museu de nulidades, por sinal que não crê na sua segurança.

Desistir dessa alucinante política de “zeros” e abraçar a gloriosa sabedoria do grande “Um” – com ou sem zeros – é esse o passo decisivo na vida de todo homem terrestre; e é aqui que está a invisível linha divisória entre as duas humanidades que habitam este globo: a humanidade profana dos insipientes e a humanidade sagrada dos sapientes.

O primeiro passo para essa suprema sapiência é a mística, que consiste na intuição do valor do “1” espiritual e na subseqüente fuga de todos os “000” das materialidades circunjacentes, às quais a sociedade dá incessante caça e em cujo nome são cometidos os maiores crimes.

A parábola da ponte (Henrique Rattner)

A globalização que varre o planeta produziu uma série de paradoxos e incertezas para a maioria das pessoas. Aumentaram a produção e comércio mundial; as distâncias entre países e continentes foram encurtadas pelos vôos a jato que alcançam uma velocidade de 1.000 km por hora. Os meios de comunicação via satélite e computadores permitem transações financeiras instantâneas, tirando enorme vantagem das diferenças de fuso-horário.

Seria de esperar que essas maravilhas tecnológicas, além da aproximação geográfica entre os povos, coincidissem com a difusão de conhecimentos científicos e tecnológicos e, sobretudo, dos padrões de convívio social das sociedades mais abertas, esclarecidas, cooperativas e democráticas.

O panorama da situação real é bem diferente. A globalização acelera, violentamente, os processos de desestruturação das comunidades tradicionais. A industrialização, a expulsão de populações de suas terras e a rápida urbanização nos países, outrora chamados “Terceiro Mundo” e hoje, “Emergentes”, desequilibram e alteram profundamente as relações de homens para homens e dos homens para com a natureza.

A destruição dos laços de solidariedade tradicionais e da estabilidade de famílias e comunidades resulta nas migrações para as cidades, despreparadas política, administrativa e economicamente para absorver as massas de migrantes. Essas ficam encurraladas e segregadas em dezenas de milhares de favelas, sem qualquer perspectiva de romper o “círculo vicioso” da pobreza, ignorância e violência. À medida que indivíduos perdem suas raízes, suas casas, terras, parentes e amigos, cresce o que David Riesman chamou de The Lonely Crowd, A Massa Solitária, que segue como um rebanho de ovelhas seu pastor armado com um cajado, seja ele falso profeta, líder carismático, ou simplesmente demagogo populista, lembrando a obra de Elias Canetti (Massa e Poder). A cada dia, fica mais difícil o indivíduo responder: “quem sou, onde pertenço e qual é meu destino?”

No passado, com relações sociais mais estáveis, seja no regime escravagista ou feudal, os indivíduos nasciam, viviam e morriam dentro de suas comunidades, sua classe e seu credo religioso, fossem eles escravos durante o regime colonial, servos no feudalismo ou operários no sistema capitalista.

As migrações para as grandes cidades destruíram os laços tradicionais de cooperação e solidariedade “mecânica” (segundo E. Durkheim). Esperanças de mobilidade geográfica e social levaram ao abandono do campo, em busca de inserção na economia de mercado, cuja divisão social de trabalho levaria à solidariedade “orgânica” (sempre segundo E. Durkheim). Mas, as cidades, longe de serem lugares de liberdade, se tornam, para muitos dos migrantes, uma armadilha, por falta de acesso a empregos estáveis e serviços de educação e saúde, sobretudo para adolescentes e jovens. Vivendo na miséria, segregados e sem esperança de mobilidade social, os jovens engrossam as fileiras da delinqüência, do narcotráfico, da prostituição e da criminalidade. Concentrada em áreas de extrema pobreza, sem infra-estrutura, educação escolar e serviços de saúde, a vida nas favelas lembra o livro escrito por Jack London, The People of the Abyss – o Povo do Abismo, no início do século passado.

A insegurança e o medo levam também a classe média e as elites a se isolarem e refugiarem atrás de muros e grades, a andarem em carros blindados e a protegerem-se com inúmeros guardas particulares. Mas todas essas medidas não conseguem conter o aumento da violência urbana, particularmente nas metrópoles que se tornaram arenas de conflitos que devoram seus próprios habitantes, lembrando as palavras de Thomas Hobbes – “homo homini lupus”. Confusos, perplexos e perdidos nesse mundo de competição selvagem, é freqüente os indivíduos se interrogarem sobre os rumos da sociedade e de suas vidas.

A falta de perspectiva e a perda dos laços de pertencimento corroem os valores e as instituições tradicionais como pátria, partido, igreja. Esses parecem ignorantes ou descrentes de sua missão civilizatória.

As interrogações sobre o destino e o sentido da vida são próprias da espécie humana desde a Antigüidade. No passado, sacerdotes, filósofos ou governantes tentaram responder a essas perguntas, cujas respostas refletem a rica diversidade cultural da Humanidade.

A Idade da Razão e do Iluminismo, nos séculos XVII e XIX, prometia a emancipação dos indivíduos e, também, o progresso das sociedades. Contudo, perdidos na massa “solitária”, os indivíduos tropeçam, caem e sofrem da angústia existencial, no mundo das incertezas. Os afortunados que conseguem um emprego sofrem do ritmo infernal de trabalho e das exigências cada vez mais duras dos chefes, superiores e executivos que buscam, freneticamente, mais produtividade e competitividade.

Às vezes, os mais “afortunados” entre os deserdados e marginalizados são objeto de um assistencialismo populista que distribui esmolas, como política de “compensação”. Que futuro espera essas populações desenraizadas, desempregadas, desabrigadas e alienadas, nominalmente livres em sociedades de democracia formal? Na realidade crua e nua elas são presas numa malha de relações sociais, em que uma minoria poderosa desemprega, oprime e explora os “de baixo”. As elites econômico-financeiras e políticas usurpam e arrogam-se os direitos de falar e decidir em nome de todos.

Até a OMC – Organização Mundial de Comércio e outras instituições financeiras internacionais, outrora paladinos da liberalização, da abertura dos mercados, em benefício da globalização e de suas “maravilhas” tecnológicas, hoje, admitem que esta pode ser não tão vantajosa para a criação de novos empregos e assim, proporcionar uma qualidade de vida decente para todos, sobretudo nos países pobres e mesmo “emergentes”, nos quais a maioria da população sobrevive vegetando precariamente no setor informal.

As terras, as águas e outras riquezas adquiridas, muitas vezes, ilicitamente, continuam a ser apropriadas e desigualmente distribuídas pelas elites, que ostentam e vivem na opulência, com consumo de luxo e, às vezes, na depravação. Confusos, perplexos e amedrontados pela falta de emprego, pela concentração contínua das indústrias, das terras, das finanças e a destruição impiedosa do meio ambiente, até os membros da classe média se interrogam sobre seu destino e o do mundo. Qual seria a saída do caos, da pobreza e da violência reinantes em nossa sociedade?

Alguns tentam encontrar uma resposta individual, na carreira e na ascensão social. Outros procuram retirar-se, tal como os monges tibetanos e os eremitas seculares, do resto do mundo, praticando a meditação. Outros procuram ingressar nas fileiras da oligarquia reinante, enquanto outros ingressam no submundo do crime de “colarinho branco”, através da corrupção, sonegação de impostos e tributos, até o tráfico e consumo de drogas.

Assim, a busca individual de respostas para os dilemas existenciais é um beco sem saída. Contrariamente à ideologia proclamada e enaltecida pelo regime capitalista, a espécie humana, desde que apareceu no planeta, é gregária, cooperativa e solidária. Para sobreviver, precisamos uns dos outros, para produzir os meios de subsistência e organizar a vida coletiva, na defesa contra desastres naturais e sociais, através do desenvolvimento de uma cultura de cooperação e de paz.

Outrora, os místicos cabalistas, quando pressionados pelos discípulos para explicar o significado da vida e o destino do mundo, costumavam responder com uma parábola: “O mundo todo é uma ponte, uma ponte muito estreita”. De onde ela vem? Não o sabemos. E onde ela nos leva – tampouco sabemos. Mas viver e cumprir a missão existencial significa atravessar a ponte.

Por ser muito estreita, muitos não conseguem subir na ponte e outros caem no abismo ao empreender a longa caminhada, freqüentemente vítimas de conflitos e guerras.

Altas taxas de mortalidade infantil, endemias, epidemias e doenças causadas por subnutrição, ou ingestão de substâncias tóxicas, ceifam a vida de milhões a cada ano. O desamparo e a dispersão devido à migração de famílias são agravadas por desemprego ou subemprego e reduzem, dramaticamente, a expectativa de vida de centenas de milhões de pessoas no mundo.

Para procurarmos, coletivamente, um sentido para nossa vida, devemos, primeiro, definir “que tipo de sociedade queremos?”. Somente quando tivermos visão e clareza sobre os rumos e o significado da vida, poderemos participar da construção de pontes para todos os seres humanos, independentemente de idade, credo religioso, gênero, classe social, raça ou cor. Assim, criaremos um mundo de bem estar, harmônico, justo e solidário para todos.