domingo, 1 de abril de 2012

Ser ou não ser (um doador), eis a questão (Bruno Momesso Bertolo)

Consternação e esperança, eis os sentimentos aflorados ao ler a matéria que noticiou a 1ª doação de órgãos em Limeira nos últimos 2 anos. A tristeza deu-se pela escassez de doações no período, enquanto o alento ocorreu pela admirável história de uma família que foi generosa em um momento de dor.

Não consigo entender como alguém e/ou sua família se recusa(m) a doar órgãos. Escolha difícil: ajudar o próximo ou oferecer os órgãos para alimentar vermes? Ser contrário à doação de órgãos é o cúmulo do materialismo, sobretudo por ser vivenciado em uma ocasião como o falecimento, ou melhor, a transição para o mundo espiritual.

A doação de órgãos é um ato de amor e sensatez. É, ainda, uma forma de perpetuar o ente que partiu, pois uma parte dele permanecerá viva em outras pessoas, auxiliando-as a superar alguma enfermidade e/ou limitação física. É, portanto, fazer a coisa certa.

Se não bastasse, os familiares e amigos do doador terão um conforto ao presenciar que a morte de seu ente querido ensejou benefícios a outrem, ainda que desconhecido. Perceberão, concretamente, que o falecimento teve um sentido até para a nossa efêmera dimensão material.

A questão, ser ou não ser (um doador), é deveras simples. Ponha-se no lugar daquele que está há anos na fila esperando um órgão para ter uma vida saudável ou suplantar a constante ameaça de morte. Imagine que fosse seu filho ou seus pais. Você gostaria que alguém lhe ajudasse, não? Então por qual motivo a recíproca não deve existir?

Paradoxalmente, um dos maiores (se não for o principal) empecilhos às doações de órgãos são as doutrinas religiosas que condenam referida ação, verdadeira afronta aos basilares conceitos da ética e da virtude. Como uma entidade superior poderia se opor a uma atitude benévola? Salvar alguém pode ser indigno ou imoral?

Manifeste o desejo de doar órgãos aos seus familiares o quanto antes. Não acredite que a morte não chegará tão cedo, afinal, ela não costuma enviar aviso prévio. Seja firme com seus parentes próximos, afirmando que é algo que deverá ser observado incondicionalmente, seja porque é um anseio final, seja porque é um ato altruísta.

Ser um doador de órgãos ou autorizar a doação de um parente falecido não pode e nem deve se resumir a aspectos atrelados a vontades supérfluas, como empáfias, poderes ou estéticas. Trata-se de propiciar a vida. Seja favorável: doe órgãos, doe vida!

domingo, 4 de março de 2012

Somos todos culpados (Bruno Momesso Bertolo)

24 de fevereiro de 2012 é uma data histórica para Limeira. Pela primeira vez um Prefeito foi cassado na cidade. A atmosfera é de exultação e justiça. Todavia, não devemos nos iludir. Nossa estimada Limeira e o Brasil permanecem inalterados.

O presente artigo não se trata de uma peça acusatória. É uma reflexão que deve ser enfrentada pelos cidadãos brasileiros.

Muitos estão indignados com a situação política, seja em âmbito municipal, estadual e/ou federal. Entretanto, poucos são os legitimados a tecerem críticas, sem que paire algum vestígio de hipocrisia. Noutras palavras: somos todos culpados!

Culpados por não votar conscientemente, vale dizer, sem conhecer plenamente o candidato, sobretudo sua trajetória política e pessoal. Culpados por votar em um candidato que promete defender interesses de apenas uma classe profissional. Culpados por eleger políticos a pedido ou imposição de líderes religiosos. Culpados por destinar o voto a um membro da comunidade, como se a atividade de um edil se limitasse a seu reduto eleitoral.

Em suma: temos cabal (ir)responsabilidade pelos representantes eleitos. E nossa conivência é ainda mais grave por não cobrarmos constantemente os parlamentares e governantes, fazendo-o somente quando a conjuntura torna-se extrema e, quiçá, irreversível.

Ademais, a cultura da corrupção está impregnada na sociedade brasileira desde os primórdios. Segundo alguns historiadores, Pero Vaz de Caminha (escrivão-mor da frota) era remunerado por folha escrita, assim sendo, ele redigia suas cartas à Corte Portuguesa com letras amplas, visando receber mais. Se não bastasse, na missiva que noticiava o descobrimento do Brasil, tratou de pedir a Dom Manuel I, Rei de Portugal, um cargo para um parente seu na nova terra. Nosso país nasceu, portanto, imerso na corrupção.

E, atualmente, ainda perdura a denominada Lei de Gérson, qual seja, a de levar vantagem sempre. Afinal, expressiva parcela da população saqueia cargas de veículos acidentados; não devolve o troco recebido a mais; estaciona em vagas destinadas a idosos e portadores de deficiências; suborna para livrar-se de uma punição; trafega pelo acostamento para evitar o congestionamento; utiliza atestado médico falso para faltar ao serviço; compra produtos piratas; se apropria de pequenos objetos da empresa ou órgão público onde trabalha. São só alguns exemplos, pois o rol poderia ser bem maior.

Vivemos uma crise moral como nação há tempos. O problema não se restringe, como muito se apregoa, exclusivamente aos políticos. Ele é, evidentemente, cultural e social. Não percebe quem não quer.

O melhor conceito de hipocrisia é “fingir uma virtude que não possua”. Destarte, se queremos honestidade, sejamos honestos. Chega de enaltecer o nefasto “jeitinho brasileiro”, essência da corrupção, mas que é tolerado e incentivado como se fosse uma astúcia benévola. Mahatma Gandhi em sua imensurável sabedoria alertava: “Seja a mudança que você deseja para o mundo”.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Incidente em Limeira (J. R. Guzzo)

Os políticos brasileiros, e gente que ocupa cargos públicos em geral, talvez devessem, para o seu próprio bem, prestar um pouco de atenção numa dessas histórias que aparecem e somem rapidamente do noticiário situado entre o mundo do crime e o da política — coisas cada vez mais parecidas, neste Brasil de hoje. Aconteceu na semana passada em Limeira, no interior do estado de São Paulo. A mulher, dois filhos e duas cunhadas do prefeito Silvio Félix, presos num rapa que dias antes havia colocado no xadrez onze pessoas ligadas à prefeitura, por denúncias de corrupção grossa, quase levam uma surra ao sair da cadeia; a Justiça, obviamente, mandou soltar todos assim que terminou o prazo de cinco dias da prisão temporária, e muita gente não gostou. Um grupo de cidadãos irados foi esperar os acusados na porta da delegacia, acertou umas pancadas em uns e outros e só não bateu mais porque a polícia não deixou. Sobrou, como imagem-símbolo dessa cena ruim, a cara apavorada da primeira-dama, refugiada no fundo de um carro da PM — além, é claro, do desconforto, comum a todos os outros, de ser chamado de “ladrão” e ter de ficar quieto.

Limeira está longe de ser um fim de mundo. Ao contrário, é um modelo daquilo que se costuma chamar, no interior, de “cidade boa”. Fica a 150 quilômetros de São Paulo, tem um pouco menos de 300.000 habitantes e faz parte do colar de comunidades prósperas que se estende pela região mais rica do interior paulista. É a terra de nomes históricos da indústria nacional — Prada, Fumagalli, Varga. Sua economia combina as vantagens de uma área industrial dinâmica e os avanços do agronegócio. Tem boas faculdades e seu Índice de Desenvolvimento Humano, medido pela ONU, está na categoria “elevado”, entre 0,800 e 0,900 — abaixo apenas do grau máximo que se pode alcançar. Infelizmente, não conseguiu ter, em termos de desenvolvimento político, os belos índices que construiu em termos de desenvolvimento humano. Limeira, nesse aspecto, é um retrato exemplar do desastre moral que marca a vida diária de tantos municípios pelo Brasil afora.

Longe da atenção nacional, rouba-se numa quantidade cada vez maior de cidades e, pior ainda, rouba-se cada vez mais. Foi-se o tempo em que prefeito e vereadores se contentavam com mixaria — o dinheirinho ganho com a venda de certificados de “habite-se” ou de licenças para instalar um forno de pizza, em geral a preços moderados. Hoje em dia os delinquentes entram no ramo com a firme decisão de ficar ricos. Querem comprar fazenda, iate de 50 pés, SUV importado. A conclusão é que Limeira vai ficando cada vez mais parecida com o Brasil da corrupção por atacado, e um número crescente de municípios vai ficando cada vez mais parecido com a Limeira de hoje.

No caso que acabou explodindo na semana passada veio aos olhos do público uma história de horrores. A mulher do prefeito, os familiares e os demais envolvidos são acusados oficialmente de furto qualificado, lavagem de dinheiro, sonegação de impostos, falsificação e formação de quadrilha. Em seu período de atividades, segundo o Ministério Público, compraram mais de cinquenta imóveis e juntaram acima de 20 milhões de reais. O prefeito, por sua vez, não está numa situação muito melhor — foi afastado do cargo por noventa dias, por envolvimento na mesma trama.

Imagina-se a recepção popular que terá se voltar à prefeitura. Quanto aos outros, o pior parece que já passou — o pior para eles, claro. Escaparam de ficar na cadeia, e é muito pouco provável que voltem para lá com uma condenação. Tudo o que podem esperar, como castigo, é o incômodo de ficar pagando advogado e se aborrecendo com o processo, coisa que promete ir longe; esse bonde, quando começa a andar, não para. É muito pouco, para a população de Limeira — e é contra isso, justamente, que se levantou a sua cólera.

O problema nem é tanto a corrupção. É a certeza de impunidade penal para os acusados, por conta de um Poder Judiciário e um sistema de leis organizadas de maneira a impedir, na prática, que os corruptos recebam qualquer punição verdadeira, seja qual for o galho que ocupam na árvore pública; funcionam, dia e noite, exatamente para isso. Em Limeira não houve linchamento — como ocorreu, na mesma semana, com um motorista de ônibus de São Paulo, morto a pancadas depois de ter provocado um acidente, numa dessas quebradas da periferia aonde a polícia sempre chega depois. Mas a exasperação é a mesma.

É bom tomar nota.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Bate neles, Rubinho! (Ernesto Rodrigues)

Já não faz mais sentido, para muita gente, a essa altura do campeonato, tentar conter o linchamento midiático a que Rubens Barrichello vem sendo submetido desde a véspera da canonização de Felipe Massa, no Grande Prêmio do Brasil. A maioria dos brasileiros não quer mais saber de Rubens e, em vez de gratidão e homenagem, no momento em que ele luta de forma angustiante para permanecer na Fórmula 1, diverte-se com novas piadas. Tudo bem: faz parte do jogo e Barrichello, nós sabemos, tem sua parcela de responsabilidade nesse melancólico canto de cisne que se desenha.

Nessas circunstâncias, poucos terão boa vontade para lembrar que Rubens foi duas vezes vice-campeão, obteve nove vitórias e protagonizou alguns momentos memoráveis em sua passagem pela Fórmula 1, principalmente quando a pista esteve molhada. Menos ainda para ponderar que Barrichello dividiu boa parte de seus dias na categoria com Schumacher, um gênio que só fez atrapalhar sua carreira, suas estatísticas e, principalmente, suas cláusulas contratuais com a Ferrari.

Na fila do incenso para Massa, pouca gente terá paciência de admitir que ele, Felipe, já não tem a dramática obrigação – aceita irresponsavelmente por Barrichello, diga-se – de substituir Senna no coração de milhões de brasileiros fulminados pela tragédia de Imola. Massa também não tem que enfrentar, como Rubens, o desejo intenso, mal-informado e imediatista de boa parte de nossa mídia por manchetes gloriosas como as de Ayrton e Nelson.

Sendo assim, não é absurdo sugerir a Barrichello que, pelo menos por uma vez, substitua aquele otimismo quase sempre desastrado – como o de sua virtual aposentadoria compulsória – por uma postura mais franca e reveladora. Em outras palavras, sugiro o seguinte: Bate, Rubinho!

Sai batendo com vontade!

Não se dissolva, dessa vez, diante dos microfones brasileiros!

Conte o que era pilotar uma Jordan-Yamaha nos tempos da Williams-Renault e demonstre o ridículo que era – e é – cobrar de você o desempenho que Senna tinha nos tempos de McLaren. Conte em detalhes a sacanagem monumental de Flavio Briatore, traindo na véspera um contrato pelo qual você dividiria a Benetton-Renault com Jean Alesi.

Bate, Rubinho! Revele os muitos coices que tomou do famoso cavalino rampante de Maranello. Dê detalhes da hipocrisia da Ferrari em atribuir, ao seu “ângulo de ataque” da zebra, aquela gravíssima quebra de suspensão no final da reta de Hungaroring. Divida, com os que torceram por você, os bastidores da vergonhosa tirada de pé para o alemão em Zeltweg.

E bate mais, Rubinho!

Relacione os que embarcaram contigo no ingênuo e desastroso projeto de “substituir” Senna e hoje fingem não ter feito parte dele. Mostre como a imprensa brasileira, com poucas exceções, foi desinformada, oportunista e leviana, no exagero de suas derrotas e na injustiça com seus bons resultados. E mande, pelo menos uma vez, de boca cheia, para a puta que os pariu, os humoristas que se fizeram com suas desgraças.

Explique, ainda, para quem te chama de banana, o que significa desintegrar um carro no alambrado de Imola, morrer por alguns segundos com a língua enrolada na garganta, e voltar a treinar, rápido, dias depois, num carro de Fórmula 1, enquanto todos ainda tentavam se recuperar das tragédias de Senna e Ratzenberger.

Finalmente, depois de bater muito, diga adeus à Fórmula 1, Rubinho.

E seja feliz, que você merece.

domingo, 25 de dezembro de 2011

O paradoxo do nosso tempo (George Carlin)

O paradoxo do nosso tempo é que temos edifícios mais altos e temperamentos mais reduzidos; estradas mais largas e pontos de vista mais estreitos. Gastamos, mas temos menos; compramos mais, mas desfrutamos menos.

Temos casas maiores e famílias menores; mais conforto e menos tempo. Temos mais graduações acadêmicas, mas menos sentimentos comuns. Temos maior conhecimento, mas menor capacidade de julgamento; mais peritos, mas mais problemas; melhor medicina, mas menor bem-estar.

Bebemos demasiado, fumamos demasiado, desperdiçamos demasiado, rimos muito pouco; movemo-nos muito rápidos, nos irritamos demasiado. Mantemo-nos muito tempo acordados, amanhecemos cansados. Lemos muito pouco, assistimos televisão demais e oramos raramente.

Falamos demasiado, amamos demasiado pouco e odiamos muito frequentemente. Aprendemos a ganhar a vida, mas não a vivê-la. Adicionamos anos às nossas vidas, não vida aos nossos anos. Multiplicamos nossos bens, mas reduzimos nossos valores.

Conseguimos ir à Lua e voltar, mas temos dificuldade em cruzar a rua para conhecer um novo vizinho. Conquistamos o espaço exterior, mas não o nosso interior.

Temos feito grandes coisas, mas nem por isso melhores.

Limpamos o ar, mas contaminamos a nossa alma; dominamos o átomo, mas não os nossos preconceitos. Escrevemos mais, mas aprendemos menos; planejamos mais, mas realizamos menos.

Aprendemos a apressar-nos, mas não a esperar. Produzimos computadores que podem processar mais informação e difundi-la, mas nos comunicamos cada vez menos e menos.

Estamos na era do fast-food e da digestão lenta; de homens de grande estatura e de pequeno caráter; dos lucros econômicos acentuados e das relações humanas superficiais.

Hoje em dia, há dois ordenados, mas mais divórcios; casas mais chiques e lares despedaçados. São tempos de viagens rápidas, fraldas descartáveis, moral descartável, encontros de uma noite e pílulas que fazem tudo, desde alegrar e acalmar, até matar.

Um momento em que há muito na vitrine e muito pouco na dispensa. Tempos em que a tecnologia lhe encaminha esta carta, permitindo partilhar tais reflexões ou simplesmente excluí-las.

Lembre-se de passar algum tempo com as pessoas que estima, pois elas não estarão por aqui para sempre. Lembre-se de ser amável com quem agora lhe admira, porque essa pessoa crescerá muito rapidamente e se afastará de você.

Lembre-se de abraçar quem está perto de você, porque esse é o único tesouro que pode dar com o coração, sem que custe nem um centavo. Lembre-se de dizer “te amo” ao seu companheiro e aos seus entes queridos, mas, sobretudo, diga com sinceridade.

Um beijo e um abraço podem curar uma ferida, quando se dão com toda a alma. Dedique tempo para amar e para conversar, bem como partilhe suas idéias mais apreciadas.

E nunca esqueça: a vida não se mede pelo número de vezes que respiramos, mas pelos extraordinários momentos que passamos juntos.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Quem são os irracionais? (Bruno Momesso Bertolo)

Sexismo, racismo, xenofobia, homofobia, intolerância religiosa, discriminação etária, discriminação de portadores de deficiências, dentre outras distinções humanas, são muito conhecidas.

E o especismo? O que é? Referido termo foi criado em 1970 por Richard D. Ryder, filósofo e psicólogo britânico, em seu livro “Vítimas da Ciência”.

É, em apertada síntese, a discriminação fundada na diferença das espécies, atribuindo valores ou direitos a determinado ser vivo conforme a espécie a qual pertence. Pode haver, ainda, uma discriminação dentro da discriminação, pois alguns especistas, por exemplo, consideram anfíbios e peixes menos importantes que os mamíferos.

Por qual razão separamos humanos, que também são animais, dos demais seres da Terra?

O principal pretexto seria a racionalidade. Sem dúvidas, nosso intelecto desenvolvido é uma diferença notável, representando, ainda, uma capacidade de nos sobrepormos às outras espécies. Uma capacidade, não um direito.

Como corolário, temos um encargo ainda maior com as espécies diferentes, já que nossas ações decorrem de uma escolha, que pode ser refletida, impulsiva ou inconsciente, sendo que tal responsabilidade não recai sobre os outros organismos. Comprometemos a todos, embora as opções sejam só nossas.

De outro flanco e lamentavelmente, diversos cientistas defendem que os denominados animais irracionais, por possuírem psique menos evoluída em relação a nós, são desprovidos de sentimentos, de modo que não entenderiam o sofrimento, a felicidade e/ou o amor, por exemplo.

Sob a batuta de sobredito e falacioso argumento, ainda vemos animais sendo aprisionados, torturados e mortos como objetos de entretenimento, como ocorre nos nefastos rodeios, touradas, circos e zoológicos. Conforme dito por Julia Allen Field, “não podemos ver a beleza essencial de um animal enjaulado, apenas a sombra de sua beleza perdida”.

Se não bastasse, ainda utilizam animais como cobaias, para testes de vários ramos industriais, mormente o de cosméticos e farmacêuticos, os quais empregam técnicas extremamente cruéis e desnecessárias, tais como a vivissecção (dissecação de animais vivos), experiências tóxicas e outros tormentos deliberados com pseudos fins científicos.

Somos melhores e/ou mais importantes? Sob qual fundamento e legitimidade? A meu ver, os humanos certamente não são mais importantes e, quiçá, nem melhores.

Com efeito, há animais que cuidam de sua prole com maior esmero e amor do que muitas pessoas, que, não raro, abandonam seus filhos por motivos fúteis, como ocorre, por exemplo, com o genitor que não aceita um descendente deficiente ou então com aquele que não paga pensão alimentícia.

Não acredito que se trate de mero instinto, como muitos apregoam. Basta lembrarmos o modo que um primata – nossos parentes mais próximos – segura sua cria, repleto de carinho e dedicação. Ou da alegria e fidelidade de um cachorro, quando seus donos retornam depois de um dia de trabalho.

Ademais, bichos não possuem vícios e defeitos inerentes ao Homo sapiens, como egoísmo, narcisismo, inveja, agressividade, entre outros. Abelhas e formigas vivem em perfeita harmonia em sociedade, o que não ocorre na civilização humana, abarrotada de guerras, delitos e discórdias.

Sejamos ponderados: irracionais são os humanos, que degradam o meio ambiente, colocando em risco a existência de todas as espécies do planeta. Não merecemos, portanto, o título de dominantes. Talvez façamos jus à pecha de domínio do mal.

A humanidade não gostaria de ser subjugada por extraterrestres. De igual forma, ponhamo-nos no lugar que destinamos atualmente aos outros seres da Terra e perceberemos como somos desumanos. É um paradoxo, mas é a verdade.

Por fim, encerro com uma citação, sempre proferida ao final do programa “TV Animal”, que ilustra impecavelmente o que penso: “Chegará o dia em que o homem conhecerá o íntimo de um animal. E, nesse dia, todo crime contra um animal será um crime contra a humanidade”.

domingo, 27 de novembro de 2011

A idade e a mudança (Lya Luft)

Mês passado participei de um evento sobre as mulheres no mundo contemporâneo. Era um bate-papo com uma platéia composta de umas 250 mulheres de todas as raças, credos e idades.

E por falar em idade, lá pelas tantas, fui questionada sobre a minha e, como não me envergonho dela, respondi. Foi um momento inesquecível... A platéia inteira fez um 'oooohh' de descrédito.

Aí fiquei pensando: “pô, estou neste auditório há quase uma hora exibindo minha inteligência, e a única coisa que provocou uma reação calorosa da mulherada foi o fato de eu não aparentar a idade que tenho? Onde é que nós estamos?”.

Onde não sei, mas estamos correndo atrás de algo caquético chamado “juventude eterna”. Estão todos em busca da reversão do tempo. Acho ótimo, porque decrepitude também não é meu sonho de consumo, mas cirurgias estéticas não dão conta desse assunto sozinhas.

Há um outro truque que faz com que continuemos a ser chamadas de senhoritas mesmo em idade avançada. A fonte da juventude chama-se "mudança".

De fato, quem é escravo da repetição está condenado a virar cadáver antes da hora. A única maneira de ser idoso sem envelhecer é não se opor a novos comportamentos, é ter disposição para guinadas. Eu pretendo morrer jovem aos 120 anos.

Mudança, o que vem a ser tal coisa?

Minha mãe recentemente mudou do apartamento enorme em que morou a vida toda para um bem menorzinho. Teve que vender e doar mais da metade dos móveis e tranqueiras, que havia guardado e, mesmo tendo feito isso com certa dor, ao conquistar uma vida mais compacta e simplificada, rejuvenesceu.

Uma amiga casada há 38 anos cansou das galinhagens do marido e o mandou passear, sem temer ficar sozinha aos 65 anos. Rejuvenesceu.

Uma outra cansou da pauleira urbana e trocou um baita emprego por um não tão bom, só que em Florianópolis, onde ela vai à praia sempre que tem sol. Rejuvenesceu.

Toda mudança cobra um alto preço emocional. Antes de se tomar uma decisão difícil, e durante a tomada, chora-se muito, os questionamentos são inúmeros, a vida se desestabiliza.

Mas então chega o depois, a coisa feita, e aí a recompensa fica escancarada na face.

Mudanças fazem milagres por nossos olhos, e é no olhar que se percebe a tal juventude eterna. Um olhar opaco pode ser puxado e repuxado por um cirurgião a ponto de as rugas sumirem, só que continuará opaco porque não existe plástica que resgate seu brilho.

Quem dá brilho ao olhar é a vida que a gente optou por levar. Olhe-se no espelho...

domingo, 6 de novembro de 2011

“Ecologizar” é preciso (Bruno Momesso Bertolo)

Recentemente, conforme estimativas, a população mundial atingiu a marca de 7 bilhões de pessoas. A cada segundo, 5 seres humanos nascem em todo o mundo, totalizando, portanto, 432.000 habitantes a mais por dia. Tais números são, no mínimo, preocupantes. Nos últimos dias, a indagação maior foi se haverá alimento para os mencionados 7 bilhões. A meu ver, a questão deveria ser outra: a Terra suportará tantos humanos?

Afinal, nossa presença no planeta (equivalente a 2 minutos se a idade da Terra fosse resumida em 365 dias) se assemelha a de um parasita, o qual exaure todos os recursos de seu hospedeiro, até levá-lo à morte. Tanto é assim que a comunidade científica, especialmente os geólogos, cogitam instituir uma nova era geológica, denominada Antropoceno, atrelada aos impactos ambientais causados pelo homem. Em outras palavras, seremos equiparados ao meteoro que extinguiu os dinossauros. E não é à toa.

Por dia, uma pessoa produz aproximadamente 5 quilos de lixo. No Brasil são gerados, diariamente, 240.000 toneladas de lixo. 90% de aludida quantia é destinada a aterros sanitários. Até quando será possível empurrar nossa sujeira para debaixo do tapete?

Infelizmente, a reciclagem no país limita-se às latas de alumínio, da qual somos recordistas mundiais, em razão de necessidade financeira de muitos catadores, não da conscientização ecológica. Com efeito, a reciclagem brasileira de papéis, plásticos e vidro, materiais altamente poluentes e amplamente utilizados, é pífia.

É sempre oportuno lembrar: 50 quilos de papel reciclado poupa uma árvore; 50 quilos de alumínio reciclado evita a extração de 5 toneladas de bauxita; 1 quilo de vidro reciclado gerará outro quilo de vidro, economizando muita energia. Ademais, uma garrafa de vidro ou plástico pode demorar até 1 milhão de anos para se decompor.

Há inúmeras maneiras de mitigarmos o dano ambiental decorrente das atividades humanas. Algumas são conhecidas, embora sejam pouco aplicadas. Evitar o desperdício de água e energia, por exemplo. Outras não são tão divulgadas, porém basta pesquisar sobre o assunto para obter alternativas simples e/ou novas condutas. Calibrar os pneus dos veículos semanalmente, por exemplo, reduz o consumo de combustível.

Não adianta reclamar da inércia estatal e/ou empresarial. Façamos a nossa parte! Se informe e notará que não é difícil ajudar. Pequenas contribuições multiplicadas fazem toda a diferença. Requer alguma disciplina e perseverança adotar novos comportamentos, entretanto, em pouco tempo, tornar-se-ão hábitos. Propague a ideia entre amigos e familiares.

Parafraseando Luís Vaz de Camões, brilhante poeta que em sua época assinalava que “navegar é preciso”, enfrentamos um novo limiar: “ecologizar” é preciso. Ou adotamos posturas ecologicamente corretas, ou então a Terra efetivará as providências necessárias para o equilíbrio natural. E o final não será feliz para nós. O homo sapiens precisa da Terra, porém a recíproca não é verdadeira.

Nosso planeta tem nos alertado por meio de diversos sinais. Já passou da hora de prestarmos atenção. Se não o faremos por consciência ao meio ambiente e às demais espécies, façamos por um ato primitivo, instintivo e um tanto egoísta: a autopreservação.

E não esqueça de reciclar este texto. Agradeço desde já!

domingo, 30 de outubro de 2011

Sociedade sem graça (José de Souza Martins)

A variedade e a frequência da violência que nos assombra constitui indício de profundas e alarmantes mudanças sociais fora de controle: pais que matam filhos, filhos que matam pais, netos que matam avós, bebês que são jogados no lixo, bêbados que dirigem carros em alta velocidade e matam. E mesmo humoristas que querem fazer rir à custa do desrespeito e do menosprezo pelo outro. A sociedade está ficando sem graça. Só há graça na reciprocidade de valores sociais em contraposição à tentação de conveniências pessoais. Nossa tradição de humor é de raiz conservadora e se baseia, sobretudo, em fazer rir das contradições próprias das insuficiências da nossa modernidade, do imitar sem ser ou do ser sem saber. Daí que o caipira seja o nosso sujeito crítico por excelência e nosso insuperável personagem de humor.

A sociedade dos incalculáveis ganhos econômicos tornou-se a sociedade das incalculáveis perdas morais. Falta uma bolsa de valores sociais, que meça diariamente quanto perdemos de nós mesmos, de nossa dignidade, de nossa autoestima, da estima e do respeito pelo outro. A sociedade do pendão da esperança está se transformando na sociedade da desesperança e do ceticismo.

Já há uma rotina de notícias sobre pessoas embriagadas que, dirigindo carro, atropelam, machucam e matam. Vamos nos acostumando, que é o pior sinal da complacência e da rendição incondicional à banalização da vida. Assassinos do volante foram soltos até antes que suas vítimas fossem enterradas. Edson Roberto Domingues, 55 anos, trabalhador, negro, chefe de família, teve 90% do corpo queimado quando seu caminhãozinho foi batido, e pegou fogo, pelo carro Camaro, importado, de R$ 165 mil, dirigido por um jovem embriagado, em disparada, que feriu quatro outras pessoas. Naquela rua a velocidade máxima é de 60 km por hora, que Edson Roberto respeitava. Foi vitimado por um bêbado irresponsável que corria a 116 km por hora. Mediante fiança de R$ 245 mil, o autor da violência foi solto 24 horas antes da morte de sua vítima e dois dias antes que a família a enterrasse no Cemitério da Lapa.

O respeitador da lei foi irremediavelmente punido, como se fosse o culpado; o violador da lei passou umas horas na cadeia e está livre, como se fosse vítima. O assassino vai ser julgado por homicídio doloso, mas o STF já tem decisão sobre outro caso do mesmo gênero, de 2002, em que o dolo é questionado. Como observou um especialista, uma pena que deveria ser de 20 anos de prisão acaba sendo, no máximo, de 4 anos e até trocada por cestas básicas para os pobres. Quando o dinheiro pode pagar por aquilo que não tem preço, quando vida e moeda se equivalem, já significa que nessa equivalência a condição humana se perdeu. O abrandamento do Código de Processo Penal, para casos assim, vai na mesma direção.

História igual ao do dono do Porsche de R$ 600 mil que abalroou e destruiu o carro dirigido por uma moça, matando-a. Salvo por um bombeiro, ele saiu dos escombros de seu carro preocupado unicamente com os danos ao seu veículo. Nossa alma foi mercantilizada no egoísmo da equivalência mercantil do que não é equivalente ou não deveria ser.

Os longos anos de ditadura, de falta de liberdade e de direitos, deram lugar a uma sociedade que se embriaga na falsa concepção de que a liberdade só existe no abuso da liberdade sem freios, sem regras, sem respeito pela liberdade do outro. De que o direito só o é no abuso do direito sem a contrapartida de um código de deveres, os do respeito pelo direito do outro. A democratização corre o risco de se tornar uma farsa na anomia que desagrega, na falta de normas decorrentes de valores sociais de referência. Esses casos sugerem que os valores estão invertidos, pervertidos.

O eixo do nosso senso de justiça vem se deslocando do que por longo tempo definiu os valores sociais e regulou o comportamento das pessoas, a sociedade valorizada como todo. A sociedade tinha a primazia na definição do certo e do errado, do bem e do mal. É verdade que a vara de marmelo teve uma função histórica na formação do caráter do brasileiro, até a geração de nossos pais e avós. O Brasil venceu essa fase repressiva e descabida e começou a formar seus filhos na brandura da compreensão, na honestidade pedagógica de falar, mas de também ouvir.

Mas essa revolução de perspectiva não levou em conta os trânsfugas da educação tradicional e da moderna, os que confundiram liberdade com abuso, direito com prepotência, democracia com impunidade. Chegamos ao tempo cinzento das novas iniquidades, o do direito torto, da lei capciosa, da lei de Gerson, do individualismo exacerbado, da solidão que cega. Em larga extensão, a sociedade brasileira está matando o outro e o sentido da alteridade e da reciprocidade. "Deus é brasileiro" foi frase comum na boca de todos durante um longo tempo de nossa história. Mas Deus morre todos os dias não só nos atos dos que a si mesmos se supõem deuses; também nas várias modalidades de aniquilamento do semelhante.

domingo, 2 de outubro de 2011

Reflexões sobre o 11 de setembro (Bruno Momesso Bertolo)

11 de setembro. Uma data marcante. Neste dia, em 1.973, um golpe militar no Chile, apoiado e financiado pelos Estados Unidos da América, depôs e assassinou o Presidente da República, Salvador Allende, implantando uma das ditaduras mais cruéis (estimativa de 40.000 vítimas) da América Latina, comandada por Augusto Pinochet.

Infelizmente, supramencionado 11/09 é olvidado, como se nunca tivesse ocorrido. Esta data é associada, em regra e de imediato, aos ataques terroristas de 2.001, acontecidos nas cidades de Nova Iorque e Washington, que vitimaram cerca de 3.000 pessoas.

Os motivos são desconhecidos, mas pouco ou quase nada se comenta acerca de todos os fatos que desencadearam no 11 de setembro de 2.001.

Por que se omite que Osama Bin Laden e a Al-Qaeda receberam treinamento, suporte financeiro e militar da CIA, para combaterem os soviéticos no Afeganistão durante a década de 80? Por que se oculta que George W. Bush recebeu um relatório do FBI em agosto de 2.001, alertando para possíveis ataques terroristas de elevadas proporções e com a utilização de aviões, mas que nada foi feito para evitar a tragédia?

Ademais, o maior atentado terrorista da História, na verdade, deu-se em 6 de agosto de 1.945, quando uma bomba atômica, despejada pela Força Aérea dos EUA, explodiu em Hiroshima, dizimando aproximadamente 140 mil pessoas em um átimo. Se não bastasse, ainda haveria, 3 dias depois, outra explosão nuclear, desta vez em Nagasaki, onde outras 80 mil vidas foram eliminadas instantaneamente. Outros milhares faleceriam em razão dos efeitos radioativos, os quais ainda geram deformidades e enfermidades no país nipônico.

Neste ponto, urge lembrar que o Japão sinalizava uma rendição, porém os EUA ignoravam os indícios, principalmente porque almejavam testar o nefasto armamento nuclear em uma população, bem como para demonstrar ao mundo e à União Soviética seu poderio militar.

Como se percebe, há várias reflexões sobre o 11 de setembro.

Todavia, neste domingo, serão lembrados, unicamente, os 10 anos do atentado de 2.001, com a reiteração infindável de cenas cinematográficas, em vários ângulos, das explosões dos aviões e das ruínas das torres gêmeas. Contar-se-á, uma vez mais e apenas, o fim da história. Esquecer-se-á, de novo e deliberadamente, de relatar os atos que contribuíram e/ou ensejaram aquela situação.

Afinal, tais ataques são consequência e reação, não uma mera afronta à liberdade e/ou paz dos Estados Unidos, supostos paladinos destes valores, como muito se apregoa pela mídia ocidental. São, sem dúvidas, frutos da política externa belicista do governo estadunidense, apoiada pela maioria do povo, cuja cultura parece idolatrar a guerra.

Basta lembrar que tiranias e/ou golpes de estado receberam e recebem apoio e/ou financiamento dos EUA, dentre os quais se destacam os governos teocráticos árabes (alguns envolvidos atualmente em constantes revoltas por direitos civis), grandes aliados por fornecerem um importante produto à economia ianque: o petróleo.

Saddam Hussein, por exemplo, era estimado parceiro político estadunidense, sendo financiado para combater os iranianos entre 1.980 e 1.988, tornando-se inimigo apenas quando invadiu o Kuwait, uma vez que este país se recusava a diminuir a produção de petróleo para aumentar o preço do barril no mercado, algo que ditador iraquiano almejava.

São fatos registrados pela História, embora sejam pouco divulgados. Os EUA foram e são fomentadores do terrorismo em várias partes do mundo. Portanto, ao menos com relação aos ataques de 11/09, é necessário dizer: os estadunidenses se tornaram vítimas de sua própria cria.

Toda vida ceifada, independentemente de nacionalidade, merece respeito e condolências. Porém, não devemos compactuar com a ideia de que o 11 de setembro de 2.001 se resume, pura e simplesmente, a um ato de fanatismo religioso. Engloba, sobretudo, interesses políticos e econômicos de governos e empresas. Não se relacionam com direitos, liberdade ou paz, vestes utilizadas, não raro, para legitimar guerras, como ocorreu no Afeganistão e no Iraque após o 11/09/2001.