domingo, 5 de agosto de 2012

Sobre o voto nulo (Bruno Momesso Bertolo)

Por que o voto nulo é tão combatido no Brasil? Por qual razão não há na urna eletrônica um botão destinado ao voto nulo, assim como ocorre com o voto em branco? Por qual motivo o voto nulo é tratado como tabu, como se fosse um assunto a ser ocultado?

Como é notório, criou-se e incutiu-se no imaginário popular a ideia de que votar nulo é sinônimo de desperdício. Incentiva-se, pasme, a votar no "menos ruim". Aliás, como se mensura quem é o "menos ruim"?

Alguém escolhe no supermercado o alimento "menos ruim"? Alguém compra o automóvel "menos ruim"? Alguém se casa com o "menos ruim"? A resposta é não, claro. Então por que a maioria da população age assim no que concerne a algo tão importante como o voto?

A História da recente democracia brasileira está repleta de exemplos de candidatos considerados "menos ruim" que, após serem eleitos e no exercício do poder, demonstraram ser tão ruins quanto. Apesar disso, muitos ainda defendem referido modo de votar. Lógica inexiste!

Se não bastasse, boa parcela do eleitorado é fatalista e a submissa, possuindo uma equivocada percepção de que temos que nos contentar com os candidatos disponíveis, sob o argumento de que "alguém tem que governar". Neste ponto, cumpre indagar: tem que ser alguém de índole duvidosa? Fazendo um paralelo, seria como adquirir o alimento menos estragado do supermercado, já que todos estavam em condições impróprias. Estranho e insensato, não? E votar assim, pode?

Alega-se que não adianta votar nulo, porque se uma única pessoa votar em um candidato, o voto deste eleitor prevalecerá. Por esse prisma, de que adianta praticar o bem se muitos perpetram o mal?

Embora o Tribunal Superior Eleitoral entenda que não haverá anulação das eleições se 50% mais um do eleitorado votar nulo (vencerá o candidato com mais votos válidos), tal modo de votar é um instrumento para demonstrar o descontentamento com os candidatos atuais. Ademais, que legitimidade teria um governante eleito com menos votos? Talvez, se houvesse manifestações populares, o eleito renunciaria ao mandato (se houver senso crítico, assim agirá espontaneamente), bem como os demais pretensos substitutos. É, em minha opinião, o único método (via sufrágio) para reformulamos o panorama político-eleitoral. Utópico ou não, é mais eficiente que votar no "menos ruim".

Alguns sustentam que votar nulo é ser omisso. Quer saber? Se assim for, é preferível. Antes omisso do que cúmplice. Ao menos não me arrependerei de ter contribuído para a dilapidação do erário e suas consequências nefastas. Não escolher é uma opção!

E você? Ainda lamentando por ter votado em quem não devia? Vai arriscar de novo? Boa sorte! E meus pêsames!

domingo, 1 de julho de 2012

Quantidade não é qualidade (Bruno Momesso Bertolo)

"Quantidade não é qualidade". Assim preceitua o antigo provérbio popular, tão repetido por nossos avós. Aludido adágio se aplica, impecavelmente, a uma recente e nova conjuntura limeirense: a possibilidade de 2º turno nas eleições municipais que se aproximam.

Alguns sugerem que Limeira tornou-se uma metrópole, unicamente porque agora comporta dois turnos. Outros alegam que o 2º turno representará um debate político maior. A meu ver, será apenas mais uma etapa de inúmeras promessas que serão prontamente esquecidas após o escrutínio. E nossa cidade continuará com suas inúmeras deficiências, nada obstante tenha potencial para evoluir.

Para alcançarmos a cifra de 200.000 eleitores, incentivou-se, nos meios de comunicação e redes sociais, os jovens de 16 anos a 18 anos incompletos a anteciparem seus registros eleitorais, pois seus votos são facultativos. Aliás, eis uma das grandes aberrações de nossa legislação: entende-se que uma pessoa possui capacidade para votar aos 16 anos, embora seja incapaz de dirigir um veículo automotor e ser responsabilizado penalmente. Lógica inexiste, afinal, a responsabilidade embutida no sufrágio é maior que a de conduzir um automóvel, pois decide a vida de toda a sociedade.

Longe de generalizar e com todo respeito às exceções, mas me dá calafrios imaginar tais jovens, a maioria alienada e despolitizada, votando. Como esperar um novo panorama na política limeirense se os eleitores não se demonstram preparados e instruídos politicamente?

Duvida? Então faça o teste. Pergunte a estes jovens eleitores, especialmente os de 16 anos a 18 anos incompletos, sobre eventos importantes da política e atualidade (somente em âmbito municipal, para evitarmos resultados mais desastrosos). As respostas serão monossilábicas, desconexas e/ou pueris, se é que as teremos. Um silêncio ensurdecedor não pode ser descartado.

Algo é certo: se houver 2º turno, as barganhas políticas serão ferrenhas. Apoio político sempre foi sinônimo de futuros cargos. Comprometer-se-á, de imediato, a independência da candidatura, maculando o governo antes mesmo de seu início. É exatamente desta promiscuidade – que alguns cínicos alegam "ser parte do jogo" – que nascem a corrupção e a ingovernabilidade, sobretudo porque o bem comum é olvidado para atender a interesses particulares de poucos.

Considerando os candidatos cogitados, a elevada quantidade de eleitores despolitizados e os corriqueiros escândalos políticos de nossa Limeira, questiono até se mereceremos o 1º turno. Sobra quantidade e falta qualidade, seja de candidatos, seja de eleitores.

Espero que você, leitor e eleitor, demonstre o quão equivocado estou. Ficarei profundamente feliz. Afinal, teremos uma Limeira efetivamente melhor em qualidade. É o que realmente importa.

domingo, 3 de junho de 2012

A "ética" dos corruptos (Renato Janine Ribeiro)

É ético um jornalista usar câmaras secretas para comprovar um crime que, depois, ele irá denunciar? Não discuto, aqui, a legalidade de sua ação, porque não tenho a formação jurídica necessária para me pronunciar sobre as leis e jurisprudência cabíveis no caso. Mas a questão adquire relevância diante do fato que movimentou a sociedade brasileira na semana que passou: a revelação, em imagens incontestáveis, de uma rede de corrupção atuando justamente nos hospitais - o que torna particularmente desumano o crime, porque está sendo cometido contra pessoas especialmente vulneráveis. Isso, além de ser uma área em que cronicamente falta dinheiro, até porque os custos com a saúde costumam subir mais que a inflação, em parte devido aos grandes avanços que a medicina tem conhecido.

O que é flagrante é a falta de ética das pessoas que vimos no "Fantástico" e no "Jornal Nacional". Os corruptos (vou chamá-los assim, embora tecnicamente não o sejam, porque não são servidores públicos) não mostraram nenhum pudor. Imaginando-se a salvo, foram francos. Duas afirmações me chocaram em especial. Primeira, quando uma senhora diz que está praticando "a ética do mercado". Mas o que ela faz não é nada ético. A não ser, claro, que use "ética" num sentido apenas descritivo, como quando se diz que a "ética do bandido" é matar quem o alcagueta, ou que a "ética do machista" é assassinar a esposa suspeita de adultério. Contudo, um dos ganhos dos últimos anos tem sido a redução desse emprego da palavra "ética", só descritivo. Cada vez mais, entendemos a ética como prescritiva, normativa, como exigente - não como a mera descrição de condutas praticadas em alguma área da ação humana. Uma expressão de Claudio Abramo, frequentemente citada pelos profissionais da imprensa, é significativa: "A ética do jornalista é a mesma do marceneiro, de qualquer pessoa".

Na verdade, até esperei, depois dessa frase sobre "a ética do mercado", que "o mercado" reagisse de alguma forma. Se ela dissesse que essa é a ética dos médicos, as associações não iriam protestar? É claro que "o mercado" não é um sujeito. Aliás, sua riqueza e eficácia estão, justamente, em ele não ser um sujeito único, mas uma rede em que se cruzam e medem inúmeros sujeitos. No entanto, aqui se coloca uma questão crucial, sempre presente quando se trata do capitalismo. Brecht tem a frase famosa: "O que é roubar um banco, em comparação com fundar um banco?" O capitalismo sempre esteve assombrado pela diferença entre o lucro obtido legítima e legalmente, e o que é extorsão, usura, roubo. Na Idade Média, a igreja cristã condenava a usura, dificultando as operações de financiamento. Por outro lado, com o capitalismo já consolidado, no final do século XIX um grupo de grandes empresários norte-americanos era chamado de "robber barons", barões ladrões, tal a sua desonestidade. Contudo, o mesmo capitalismo cresce graças a uma ética extremamente forte, que Max Weber, num livro clássico, aproximou do protestantismo. Na verdade, a distinção entre o lucro e a extorsão é crucial para o capitalismo. Um dos desafios para ele funcionar, e em especial para se tornar popular, é convencer a sociedade de que seu compromisso ético - com a construção da riqueza pelo trabalho e o esforço - supera seus deslizes, os quais serão rigorosamente punidos. Ou seja, "o mercado" precisa reagir. O debate sobre esse caso não pode ficar circunscrito à área política. "O mercado" foi injuriado, tem de responder.

O outro ponto assustador foi quando um dos personagens gravados disse que sempre ensinava a seus filhos a virtude da solidariedade. Disse isso com outras palavras, mas ele considerava digno de educar seus filhos na formação de quadrilha. Aqui, estamos diretamente na ética do crime. Mas, se na frase da senhora sobre o mercado podíamos ver alguma ironia ou resignação ("a vida como ela é"), na frase desse senhor se ouvia algo mais grave: a educação dos filhos, a construção do futuro segundo a ótica do criminoso. Uma coisa é resignar-se ao mundo como está e operar dentro dele. Outra, pior, é entender que ele não vai melhorar e, portanto, a melhor educação que se deve dar aos pequenos é ensiná-los a serem bandidos. Aqui, a tarefa afeta, em especial, os educadores profissionais, como os professores, e a multidão de educadores leigos, que são os pais e todos os que cuidam de crianças. Mas, antes mesmo disso, ela passa por uma pergunta cândida: podemos melhorar, em termos de sociedade, no que se refere ao respeito da lei e dos outros? É possível convencermo-nos, e convencermos os outros, de que seguir os preceitos éticos é absolutamente necessário? Ou viveremos nas exceções? E isso diz respeito a todos nós.

Ocorreu-me, uma vez, que no Brasil a lei tem papel mais indicativo do que prescritivo. Explico: todos concordamos que se deve parar no sinal verde - e a grande maioria o faz. Mas a pressa, o fato de não estar vindo um carro pela outra via, a demora no sinal "justificam" eventualmente passar no sinal vermelho. A lei deixa de ser lei para se tornar uma referência, apenas; ou, pior, algo que espero que os outros respeitem absolutamente, mas que infringirei quando me achar "justificado" a fazê-lo. Guiando desse jeito, vários pais mataram os próprios filhos - e isso continua acontecendo. Não precisaremos fortalecer, enquanto sociedade, a convicção de que para um bom convívio é preciso repudiar fortemente essas duas frases que, na sua euforia, os dois personagens pronunciaram sem saberem que estavam sendo gravados? Enquanto isso, obrigado aos repórteres que denunciaram esse crime.

domingo, 6 de maio de 2012

As mulheres (Rita Lee)

Eu tinha 13 anos, em Fortaleza, quando ouvi gritos de pavor. Vinham da vizinhança, da casa de Bete, mocinha linda, que usava tranças. Levei apenas uma hora para saber o motivo. Bete fora acusada de não ser mais virgem e os irmãos a subjugavam em cima de sua estreita cama de solteira, para que o médico da família lhe enfiasse a mão enluvada entre as pernas e decretasse se tinha ou não o selo da honra. Como o lacre continuava lá, os pais respiraram, mas a Bete nunca mais foi à janela, nunca mais dançou nos bailes e acabou fugindo para o Piauí, ninguém sabe como, nem com quem.

Eu tinha apenas 14 anos, quando Maria Lúcia tentou escapar, saltando o muro alto do quintal da sua casa para se encontrar com o namorado. Agarrada pelos cabelos e dominada, não conseguiu passar no exame ginecológico. O laudo médico registrou vestígios himenais dilacerados, e os pais internaram a pecadora no reformatório Bom Pastor, para se esquecer do mundo. Realmente, esqueceu, morrendo tuberculosa.

Estes episódios marcaram para sempre a minha consciência e me fizeram perguntar que poder é esse que a família e os homens têm sobre o corpo das mulheres?

Ontem, para mutilar, amordaçar, silenciar. Hoje, para manipular, moldar, escravizar aos estereótipos. Todos vimos, na televisão, modelos torturados por seguidas cirurgias plásticas. Transformaram seus seios em alegorias para entrar na moda da peitaria robusta das norte americanas. Entupiram as nádegas de silicone para se tornarem rebolativas e sensuais, garantindo bom sucesso nas passarelas do samba. Substituíram os narizes, desviaram costas, mudaram o traçado do dorso para se adaptarem à moda do momento e ficarem irresistíveis diante dos homens.

E, com isso, Barbies de facaria, provocaram em muitas outras mulheres - as baixinhas, as gordas, as de óculos - um sentimento de perda de autoestima. Isso exatamente no momento em que a maioria de estudantes universitários (56%) é composto de moças. Em que mulheres se afirmam na magistratura, na pesquisa científica, na política, no jornalismo.

E, no momento em que as pioneiras do feminismo passam a defender a teoria de que é preciso feminilizar o mundo e torná-lo mais distante da barbárie mercantilista e mais próximo do humanismo.

Por mim, acho que só as mulheres podem desarmar a sociedade. Até porque elas são desarmadas pela própria natureza. Nascem sem pênis, sem o poder fálico da penetração e do estupro, tão bem representado por pistolas, revólveres, flechas, espadas e punhais. Ninguém diz, de uma mulher, que ela é de espadas. Ninguém lhe dá, na primeira infância, um fuzil de plástico, como fazem com os meninos, para fortalecer sua virilidade e violência.

As mulheres detestam o sangue, até mesmo porque têm que derramá-lo na menstruação ou no parto. Odeiam as guerras, os exércitos regulares ou as gangues urbanas, porque lhes tiram os filhos de sua convivência e os colocam na marginalidade, na insegurança e na violência. É preciso voltar os olhos para a população feminina como a grande articuladora da paz.

E para começar, queremos pregar o respeito ao corpo da mulher. Respeito às suas pernas que têm varizes porque carregam latas d'água e trouxas de roupa. Respeito aos seus seios que perderam a firmeza porque amamentaram seus filhos ao longo dos anos. Respeito ao seu dorso que engrossou, porque elas carregam o país nas costas. São as mulheres que irão impor um adeus às armas, quando forem ouvidas e valorizadas e puderem fazer prevalecer a ternura de suas mentes e a doçura de seus corações.

Nem toda feiticeira é corcunda. Nem toda brasileira é só bunda.

domingo, 1 de abril de 2012

Ser ou não ser (um doador), eis a questão (Bruno Momesso Bertolo)

Consternação e esperança, eis os sentimentos aflorados ao ler a matéria que noticiou a 1ª doação de órgãos em Limeira nos últimos 2 anos. A tristeza deu-se pela escassez de doações no período, enquanto o alento ocorreu pela admirável história de uma família que foi generosa em um momento de dor.

Não consigo entender como alguém e/ou sua família se recusa(m) a doar órgãos. Escolha difícil: ajudar o próximo ou oferecer os órgãos para alimentar vermes? Ser contrário à doação de órgãos é o cúmulo do materialismo, sobretudo por ser vivenciado em uma ocasião como o falecimento, ou melhor, a transição para o mundo espiritual.

A doação de órgãos é um ato de amor e sensatez. É, ainda, uma forma de perpetuar o ente que partiu, pois uma parte dele permanecerá viva em outras pessoas, auxiliando-as a superar alguma enfermidade e/ou limitação física. É, portanto, fazer a coisa certa.

Se não bastasse, os familiares e amigos do doador terão um conforto ao presenciar que a morte de seu ente querido ensejou benefícios a outrem, ainda que desconhecido. Perceberão, concretamente, que o falecimento teve um sentido até para a nossa efêmera dimensão material.

A questão, ser ou não ser (um doador), é deveras simples. Ponha-se no lugar daquele que está há anos na fila esperando um órgão para ter uma vida saudável ou suplantar a constante ameaça de morte. Imagine que fosse seu filho ou seus pais. Você gostaria que alguém lhe ajudasse, não? Então por qual motivo a recíproca não deve existir?

Paradoxalmente, um dos maiores (se não for o principal) empecilhos às doações de órgãos são as doutrinas religiosas que condenam referida ação, verdadeira afronta aos basilares conceitos da ética e da virtude. Como uma entidade superior poderia se opor a uma atitude benévola? Salvar alguém pode ser indigno ou imoral?

Manifeste o desejo de doar órgãos aos seus familiares o quanto antes. Não acredite que a morte não chegará tão cedo, afinal, ela não costuma enviar aviso prévio. Seja firme com seus parentes próximos, afirmando que é algo que deverá ser observado incondicionalmente, seja porque é um anseio final, seja porque é um ato altruísta.

Ser um doador de órgãos ou autorizar a doação de um parente falecido não pode e nem deve se resumir a aspectos atrelados a vontades supérfluas, como empáfias, poderes ou estéticas. Trata-se de propiciar a vida. Seja favorável: doe órgãos, doe vida!

domingo, 4 de março de 2012

Somos todos culpados (Bruno Momesso Bertolo)

24 de fevereiro de 2012 é uma data histórica para Limeira. Pela primeira vez um Prefeito foi cassado na cidade. A atmosfera é de exultação e justiça. Todavia, não devemos nos iludir. Nossa estimada Limeira e o Brasil permanecem inalterados.

O presente artigo não se trata de uma peça acusatória. É uma reflexão que deve ser enfrentada pelos cidadãos brasileiros.

Muitos estão indignados com a situação política, seja em âmbito municipal, estadual e/ou federal. Entretanto, poucos são os legitimados a tecerem críticas, sem que paire algum vestígio de hipocrisia. Noutras palavras: somos todos culpados!

Culpados por não votar conscientemente, vale dizer, sem conhecer plenamente o candidato, sobretudo sua trajetória política e pessoal. Culpados por votar em um candidato que promete defender interesses de apenas uma classe profissional. Culpados por eleger políticos a pedido ou imposição de líderes religiosos. Culpados por destinar o voto a um membro da comunidade, como se a atividade de um edil se limitasse a seu reduto eleitoral.

Em suma: temos cabal (ir)responsabilidade pelos representantes eleitos. E nossa conivência é ainda mais grave por não cobrarmos constantemente os parlamentares e governantes, fazendo-o somente quando a conjuntura torna-se extrema e, quiçá, irreversível.

Ademais, a cultura da corrupção está impregnada na sociedade brasileira desde os primórdios. Segundo alguns historiadores, Pero Vaz de Caminha (escrivão-mor da frota) era remunerado por folha escrita, assim sendo, ele redigia suas cartas à Corte Portuguesa com letras amplas, visando receber mais. Se não bastasse, na missiva que noticiava o descobrimento do Brasil, tratou de pedir a Dom Manuel I, Rei de Portugal, um cargo para um parente seu na nova terra. Nosso país nasceu, portanto, imerso na corrupção.

E, atualmente, ainda perdura a denominada Lei de Gérson, qual seja, a de levar vantagem sempre. Afinal, expressiva parcela da população saqueia cargas de veículos acidentados; não devolve o troco recebido a mais; estaciona em vagas destinadas a idosos e portadores de deficiências; suborna para livrar-se de uma punição; trafega pelo acostamento para evitar o congestionamento; utiliza atestado médico falso para faltar ao serviço; compra produtos piratas; se apropria de pequenos objetos da empresa ou órgão público onde trabalha. São só alguns exemplos, pois o rol poderia ser bem maior.

Vivemos uma crise moral como nação há tempos. O problema não se restringe, como muito se apregoa, exclusivamente aos políticos. Ele é, evidentemente, cultural e social. Não percebe quem não quer.

O melhor conceito de hipocrisia é “fingir uma virtude que não possua”. Destarte, se queremos honestidade, sejamos honestos. Chega de enaltecer o nefasto “jeitinho brasileiro”, essência da corrupção, mas que é tolerado e incentivado como se fosse uma astúcia benévola. Mahatma Gandhi em sua imensurável sabedoria alertava: “Seja a mudança que você deseja para o mundo”.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Incidente em Limeira (J. R. Guzzo)

Os políticos brasileiros, e gente que ocupa cargos públicos em geral, talvez devessem, para o seu próprio bem, prestar um pouco de atenção numa dessas histórias que aparecem e somem rapidamente do noticiário situado entre o mundo do crime e o da política — coisas cada vez mais parecidas, neste Brasil de hoje. Aconteceu na semana passada em Limeira, no interior do estado de São Paulo. A mulher, dois filhos e duas cunhadas do prefeito Silvio Félix, presos num rapa que dias antes havia colocado no xadrez onze pessoas ligadas à prefeitura, por denúncias de corrupção grossa, quase levam uma surra ao sair da cadeia; a Justiça, obviamente, mandou soltar todos assim que terminou o prazo de cinco dias da prisão temporária, e muita gente não gostou. Um grupo de cidadãos irados foi esperar os acusados na porta da delegacia, acertou umas pancadas em uns e outros e só não bateu mais porque a polícia não deixou. Sobrou, como imagem-símbolo dessa cena ruim, a cara apavorada da primeira-dama, refugiada no fundo de um carro da PM — além, é claro, do desconforto, comum a todos os outros, de ser chamado de “ladrão” e ter de ficar quieto.

Limeira está longe de ser um fim de mundo. Ao contrário, é um modelo daquilo que se costuma chamar, no interior, de “cidade boa”. Fica a 150 quilômetros de São Paulo, tem um pouco menos de 300.000 habitantes e faz parte do colar de comunidades prósperas que se estende pela região mais rica do interior paulista. É a terra de nomes históricos da indústria nacional — Prada, Fumagalli, Varga. Sua economia combina as vantagens de uma área industrial dinâmica e os avanços do agronegócio. Tem boas faculdades e seu Índice de Desenvolvimento Humano, medido pela ONU, está na categoria “elevado”, entre 0,800 e 0,900 — abaixo apenas do grau máximo que se pode alcançar. Infelizmente, não conseguiu ter, em termos de desenvolvimento político, os belos índices que construiu em termos de desenvolvimento humano. Limeira, nesse aspecto, é um retrato exemplar do desastre moral que marca a vida diária de tantos municípios pelo Brasil afora.

Longe da atenção nacional, rouba-se numa quantidade cada vez maior de cidades e, pior ainda, rouba-se cada vez mais. Foi-se o tempo em que prefeito e vereadores se contentavam com mixaria — o dinheirinho ganho com a venda de certificados de “habite-se” ou de licenças para instalar um forno de pizza, em geral a preços moderados. Hoje em dia os delinquentes entram no ramo com a firme decisão de ficar ricos. Querem comprar fazenda, iate de 50 pés, SUV importado. A conclusão é que Limeira vai ficando cada vez mais parecida com o Brasil da corrupção por atacado, e um número crescente de municípios vai ficando cada vez mais parecido com a Limeira de hoje.

No caso que acabou explodindo na semana passada veio aos olhos do público uma história de horrores. A mulher do prefeito, os familiares e os demais envolvidos são acusados oficialmente de furto qualificado, lavagem de dinheiro, sonegação de impostos, falsificação e formação de quadrilha. Em seu período de atividades, segundo o Ministério Público, compraram mais de cinquenta imóveis e juntaram acima de 20 milhões de reais. O prefeito, por sua vez, não está numa situação muito melhor — foi afastado do cargo por noventa dias, por envolvimento na mesma trama.

Imagina-se a recepção popular que terá se voltar à prefeitura. Quanto aos outros, o pior parece que já passou — o pior para eles, claro. Escaparam de ficar na cadeia, e é muito pouco provável que voltem para lá com uma condenação. Tudo o que podem esperar, como castigo, é o incômodo de ficar pagando advogado e se aborrecendo com o processo, coisa que promete ir longe; esse bonde, quando começa a andar, não para. É muito pouco, para a população de Limeira — e é contra isso, justamente, que se levantou a sua cólera.

O problema nem é tanto a corrupção. É a certeza de impunidade penal para os acusados, por conta de um Poder Judiciário e um sistema de leis organizadas de maneira a impedir, na prática, que os corruptos recebam qualquer punição verdadeira, seja qual for o galho que ocupam na árvore pública; funcionam, dia e noite, exatamente para isso. Em Limeira não houve linchamento — como ocorreu, na mesma semana, com um motorista de ônibus de São Paulo, morto a pancadas depois de ter provocado um acidente, numa dessas quebradas da periferia aonde a polícia sempre chega depois. Mas a exasperação é a mesma.

É bom tomar nota.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Bate neles, Rubinho! (Ernesto Rodrigues)

Já não faz mais sentido, para muita gente, a essa altura do campeonato, tentar conter o linchamento midiático a que Rubens Barrichello vem sendo submetido desde a véspera da canonização de Felipe Massa, no Grande Prêmio do Brasil. A maioria dos brasileiros não quer mais saber de Rubens e, em vez de gratidão e homenagem, no momento em que ele luta de forma angustiante para permanecer na Fórmula 1, diverte-se com novas piadas. Tudo bem: faz parte do jogo e Barrichello, nós sabemos, tem sua parcela de responsabilidade nesse melancólico canto de cisne que se desenha.

Nessas circunstâncias, poucos terão boa vontade para lembrar que Rubens foi duas vezes vice-campeão, obteve nove vitórias e protagonizou alguns momentos memoráveis em sua passagem pela Fórmula 1, principalmente quando a pista esteve molhada. Menos ainda para ponderar que Barrichello dividiu boa parte de seus dias na categoria com Schumacher, um gênio que só fez atrapalhar sua carreira, suas estatísticas e, principalmente, suas cláusulas contratuais com a Ferrari.

Na fila do incenso para Massa, pouca gente terá paciência de admitir que ele, Felipe, já não tem a dramática obrigação – aceita irresponsavelmente por Barrichello, diga-se – de substituir Senna no coração de milhões de brasileiros fulminados pela tragédia de Imola. Massa também não tem que enfrentar, como Rubens, o desejo intenso, mal-informado e imediatista de boa parte de nossa mídia por manchetes gloriosas como as de Ayrton e Nelson.

Sendo assim, não é absurdo sugerir a Barrichello que, pelo menos por uma vez, substitua aquele otimismo quase sempre desastrado – como o de sua virtual aposentadoria compulsória – por uma postura mais franca e reveladora. Em outras palavras, sugiro o seguinte: Bate, Rubinho!

Sai batendo com vontade!

Não se dissolva, dessa vez, diante dos microfones brasileiros!

Conte o que era pilotar uma Jordan-Yamaha nos tempos da Williams-Renault e demonstre o ridículo que era – e é – cobrar de você o desempenho que Senna tinha nos tempos de McLaren. Conte em detalhes a sacanagem monumental de Flavio Briatore, traindo na véspera um contrato pelo qual você dividiria a Benetton-Renault com Jean Alesi.

Bate, Rubinho! Revele os muitos coices que tomou do famoso cavalino rampante de Maranello. Dê detalhes da hipocrisia da Ferrari em atribuir, ao seu “ângulo de ataque” da zebra, aquela gravíssima quebra de suspensão no final da reta de Hungaroring. Divida, com os que torceram por você, os bastidores da vergonhosa tirada de pé para o alemão em Zeltweg.

E bate mais, Rubinho!

Relacione os que embarcaram contigo no ingênuo e desastroso projeto de “substituir” Senna e hoje fingem não ter feito parte dele. Mostre como a imprensa brasileira, com poucas exceções, foi desinformada, oportunista e leviana, no exagero de suas derrotas e na injustiça com seus bons resultados. E mande, pelo menos uma vez, de boca cheia, para a puta que os pariu, os humoristas que se fizeram com suas desgraças.

Explique, ainda, para quem te chama de banana, o que significa desintegrar um carro no alambrado de Imola, morrer por alguns segundos com a língua enrolada na garganta, e voltar a treinar, rápido, dias depois, num carro de Fórmula 1, enquanto todos ainda tentavam se recuperar das tragédias de Senna e Ratzenberger.

Finalmente, depois de bater muito, diga adeus à Fórmula 1, Rubinho.

E seja feliz, que você merece.

domingo, 25 de dezembro de 2011

O paradoxo do nosso tempo (George Carlin)

O paradoxo do nosso tempo é que temos edifícios mais altos e temperamentos mais reduzidos; estradas mais largas e pontos de vista mais estreitos. Gastamos, mas temos menos; compramos mais, mas desfrutamos menos.

Temos casas maiores e famílias menores; mais conforto e menos tempo. Temos mais graduações acadêmicas, mas menos sentimentos comuns. Temos maior conhecimento, mas menor capacidade de julgamento; mais peritos, mas mais problemas; melhor medicina, mas menor bem-estar.

Bebemos demasiado, fumamos demasiado, desperdiçamos demasiado, rimos muito pouco; movemo-nos muito rápidos, nos irritamos demasiado. Mantemo-nos muito tempo acordados, amanhecemos cansados. Lemos muito pouco, assistimos televisão demais e oramos raramente.

Falamos demasiado, amamos demasiado pouco e odiamos muito frequentemente. Aprendemos a ganhar a vida, mas não a vivê-la. Adicionamos anos às nossas vidas, não vida aos nossos anos. Multiplicamos nossos bens, mas reduzimos nossos valores.

Conseguimos ir à Lua e voltar, mas temos dificuldade em cruzar a rua para conhecer um novo vizinho. Conquistamos o espaço exterior, mas não o nosso interior.

Temos feito grandes coisas, mas nem por isso melhores.

Limpamos o ar, mas contaminamos a nossa alma; dominamos o átomo, mas não os nossos preconceitos. Escrevemos mais, mas aprendemos menos; planejamos mais, mas realizamos menos.

Aprendemos a apressar-nos, mas não a esperar. Produzimos computadores que podem processar mais informação e difundi-la, mas nos comunicamos cada vez menos e menos.

Estamos na era do fast-food e da digestão lenta; de homens de grande estatura e de pequeno caráter; dos lucros econômicos acentuados e das relações humanas superficiais.

Hoje em dia, há dois ordenados, mas mais divórcios; casas mais chiques e lares despedaçados. São tempos de viagens rápidas, fraldas descartáveis, moral descartável, encontros de uma noite e pílulas que fazem tudo, desde alegrar e acalmar, até matar.

Um momento em que há muito na vitrine e muito pouco na dispensa. Tempos em que a tecnologia lhe encaminha esta carta, permitindo partilhar tais reflexões ou simplesmente excluí-las.

Lembre-se de passar algum tempo com as pessoas que estima, pois elas não estarão por aqui para sempre. Lembre-se de ser amável com quem agora lhe admira, porque essa pessoa crescerá muito rapidamente e se afastará de você.

Lembre-se de abraçar quem está perto de você, porque esse é o único tesouro que pode dar com o coração, sem que custe nem um centavo. Lembre-se de dizer “te amo” ao seu companheiro e aos seus entes queridos, mas, sobretudo, diga com sinceridade.

Um beijo e um abraço podem curar uma ferida, quando se dão com toda a alma. Dedique tempo para amar e para conversar, bem como partilhe suas idéias mais apreciadas.

E nunca esqueça: a vida não se mede pelo número de vezes que respiramos, mas pelos extraordinários momentos que passamos juntos.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Quem são os irracionais? (Bruno Momesso Bertolo)

Sexismo, racismo, xenofobia, homofobia, intolerância religiosa, discriminação etária, discriminação de portadores de deficiências, dentre outras distinções humanas, são muito conhecidas.

E o especismo? O que é? Referido termo foi criado em 1970 por Richard D. Ryder, filósofo e psicólogo britânico, em seu livro “Vítimas da Ciência”.

É, em apertada síntese, a discriminação fundada na diferença das espécies, atribuindo valores ou direitos a determinado ser vivo conforme a espécie a qual pertence. Pode haver, ainda, uma discriminação dentro da discriminação, pois alguns especistas, por exemplo, consideram anfíbios e peixes menos importantes que os mamíferos.

Por qual razão separamos humanos, que também são animais, dos demais seres da Terra?

O principal pretexto seria a racionalidade. Sem dúvidas, nosso intelecto desenvolvido é uma diferença notável, representando, ainda, uma capacidade de nos sobrepormos às outras espécies. Uma capacidade, não um direito.

Como corolário, temos um encargo ainda maior com as espécies diferentes, já que nossas ações decorrem de uma escolha, que pode ser refletida, impulsiva ou inconsciente, sendo que tal responsabilidade não recai sobre os outros organismos. Comprometemos a todos, embora as opções sejam só nossas.

De outro flanco e lamentavelmente, diversos cientistas defendem que os denominados animais irracionais, por possuírem psique menos evoluída em relação a nós, são desprovidos de sentimentos, de modo que não entenderiam o sofrimento, a felicidade e/ou o amor, por exemplo.

Sob a batuta de sobredito e falacioso argumento, ainda vemos animais sendo aprisionados, torturados e mortos como objetos de entretenimento, como ocorre nos nefastos rodeios, touradas, circos e zoológicos. Conforme dito por Julia Allen Field, “não podemos ver a beleza essencial de um animal enjaulado, apenas a sombra de sua beleza perdida”.

Se não bastasse, ainda utilizam animais como cobaias, para testes de vários ramos industriais, mormente o de cosméticos e farmacêuticos, os quais empregam técnicas extremamente cruéis e desnecessárias, tais como a vivissecção (dissecação de animais vivos), experiências tóxicas e outros tormentos deliberados com pseudos fins científicos.

Somos melhores e/ou mais importantes? Sob qual fundamento e legitimidade? A meu ver, os humanos certamente não são mais importantes e, quiçá, nem melhores.

Com efeito, há animais que cuidam de sua prole com maior esmero e amor do que muitas pessoas, que, não raro, abandonam seus filhos por motivos fúteis, como ocorre, por exemplo, com o genitor que não aceita um descendente deficiente ou então com aquele que não paga pensão alimentícia.

Não acredito que se trate de mero instinto, como muitos apregoam. Basta lembrarmos o modo que um primata – nossos parentes mais próximos – segura sua cria, repleto de carinho e dedicação. Ou da alegria e fidelidade de um cachorro, quando seus donos retornam depois de um dia de trabalho.

Ademais, bichos não possuem vícios e defeitos inerentes ao Homo sapiens, como egoísmo, narcisismo, inveja, agressividade, entre outros. Abelhas e formigas vivem em perfeita harmonia em sociedade, o que não ocorre na civilização humana, abarrotada de guerras, delitos e discórdias.

Sejamos ponderados: irracionais são os humanos, que degradam o meio ambiente, colocando em risco a existência de todas as espécies do planeta. Não merecemos, portanto, o título de dominantes. Talvez façamos jus à pecha de domínio do mal.

A humanidade não gostaria de ser subjugada por extraterrestres. De igual forma, ponhamo-nos no lugar que destinamos atualmente aos outros seres da Terra e perceberemos como somos desumanos. É um paradoxo, mas é a verdade.

Por fim, encerro com uma citação, sempre proferida ao final do programa “TV Animal”, que ilustra impecavelmente o que penso: “Chegará o dia em que o homem conhecerá o íntimo de um animal. E, nesse dia, todo crime contra um animal será um crime contra a humanidade”.