domingo, 5 de outubro de 2008

Pequena parcela (Chico Xavier)

Que eu continue a acreditar no outro, mesmo sabendo de alguns valores tão estranhos que permeiam o mundo!
Que eu continue otimista, mesmo sabendo que o futuro que nos espera nem sempre é tão alegre!
Que eu continue com a vontade de viver, mesmo sabendo que a vida é, em muitos momentos, uma lição difícil de ser aprendida!

Que eu permaneça com a vontade de ter grandes amigos, mesmo sabendo que com as voltas do mundo, eles vão indo embora de nossas vidas!
Que eu realimente sempre a vontade de ajudar as pessoas, mesmo sabendo que muitas delas são incapazes de ver, sentir, entender ou utilizar esta ajuda!
Que eu mantenha meu equilíbrio, mesmo sabendo que os desafios são inúmeros ao longo do caminho!

Que eu exteriorize a vontade de amar, entendendo que amar não é sentimento de posse... É sentimento de doação!
Que eu sustente a luz e o brilho no olhar, mesmo sabendo que muitas coisas que vejo no mundo, escurecem meus olhos!
Que eu retroalimente minha garra, mesmo sabendo que a derrota e a perda são ingredientes tão fortes quanto o sucesso e a alegria!

Que eu atenda sempre mais a minha intuição, que sinaliza o que de mais autêntico possuo!
Que eu pratique sempre mais o sentimento de justiça, mesmo em meio à turbulência dos interesses!
Que eu não perca o meu forte abraço e o distribua sempre; que eu perpetue a beleza e o brilho de ver, mesmo sabendo que as lágrimas também brotam dos meus olhos!

E que eu manifeste o amor por minha família, mesmo sabendo que ela muitas vezes me exige muito para manter sua harmonia!
Que eu acalente a vontade de ser grande, mesmo sabendo que minha parcela
de contribuição no mundo é pequena!
E, acima de tudo, que eu lembre sempre que todos nós fazemos parte desta maravilhosa teia chamada vida, criada por Alguém bem superior a todos nós!
E que as grandes mudanças não ocorrem por grandes feitos de alguns e, sim, nas pequenas parcelas cotidianas de todos nós!

domingo, 28 de setembro de 2008

Simplicidade (Luis Fernando Veríssimo)

Cada semana, uma novidade. A última foi que pizza previne câncer do esôfago. Acho a maior graça. Tomate previne isso, cebola previne aquilo, chocolate faz bem, chocolate faz mal, um cálice diário de vinho não tem problema, qualquer gole de álcool é nocivo, tome água em abundância, mas não exagere...

Diante desta profusão de descobertas, acho mais seguro não mudar de hábitos. Sei direitinho o que faz bem e o que faz mal pra minha saúde.

Prazer faz muito bem.
Dormir me deixa 0 km.
Ler um bom livro faz-me sentir novo em folha.
Viajar me deixa tenso antes de embarcar, mas depois rejuvenesço uns cinco anos.
Viagens aéreas não me incham as pernas; incham-me o cérebro, volto cheio de idéias.

Brigar me provoca arritmia cardíaca.
Ver pessoas tendo acessos de estupidez me embrulha o estômago.
Testemunhar gente jogando lata de cerveja pela janela do carro me faz perder toda a fé no ser humano.
E telejornais... Os médicos deveriam proibir – como doem!

Caminhar faz bem, dançar faz bem, ficar em silêncio quando uma discussão está pegando fogo, faz muito bem! Você exercita o autocontrole e ainda acorda no outro dia sem se sentir arrependido de nada. Acordar de manhã arrependido do que disse ou do que fez ontem à noite é prejudicial à saúde!
E passar o resto do dia sem coragem para pedir desculpas, pior ainda!
Não pedir perdão pelas nossas mancadas dá câncer, não há tomate ou mussarela que previna.

Ir ao cinema, conseguir um lugar central nas fileiras do fundo, não ter ninguém atrapalhando sua visão, nenhum celular tocando e o filme ser espetacular, uau!
Cinema é melhor pra saúde do que pipoca!
Conversa é melhor do que piada.
Exercício é melhor do que cirurgia.
Humor é melhor do que rancor.
Amigos são melhores do que gente influente.
Economia é melhor do que dívida.
Pergunta é melhor do que dúvida.
Sonhar é melhor do que nada!

domingo, 21 de setembro de 2008

Um país que cai de bunda e chora (James Pizarro)

Sou tomado de profunda melancolia ao contemplar o desempenho do Brasil nas Olimpíadas, constatando nossa colocação no quadro de medalhas e comparar nosso país com os países que estão à nossa frente.

Fico triste ao ver que em nossa seleção olímpica de futebol existem jogadores que ganham milhões e milhões de dólares, enquanto representantes do nosso judô choram e são humilhados por não ter dinheiro para pagar o exame de faixa preta.

Fico irado ao ver o Galvão Bueno, nas transmissões da Globo, enaltecer delirantemente "o gênio mágico" do "fenômeno" Phelps, nadador norte-americano, e não falar no mesmo tom do nosso nadador Cielo, este sim, um fenômeno. Fenômeno porque treinou seis horas por dia nos três últimos anos, numa cidade do interior dos EUA, sustentado pelos próprios pais e pela generosidade de alguns amigos, pois não recebe um auxílio oficial.

Fico depressivo ao contemplar na TV nossas minguadas medalhas de bronze.

E fico pensando que, de cada mega-sena e outras loterias oficiais, o governo paga apenas 30% do arrecadado ao ganhador e propaga que os outros 70% são destinados a isso ou aquilo, sem que a gente possa fiscalizar com nitidez tal aplicação.

Estou por completar 66 anos. E desde pequenino tem sido assim. Lembro do Ademar Ferreira da Silva, nosso bicampeão olímpico do salto tríplice que foi competir tuberculoso!

E jamais me sairá da mente o olhar de estupor de Diego Hipólito caindo de bunda no chão no final da sua apresentação, quando por infelicidade e questão de dois segundos deixou de subir ao pódio. E de suas lágrimas pedindo desculpas, quando ele não tem culpa de nada. Das lágrimas de outros atletas brasileiros dizendo que não deu. Pedindo desculpas aos familiares e ao povo.

Meu Deus!

Será que vou morrer vendo um povo que só chora e pede desculpas?

Será que vou morrer num país que se estatela de bunda no chão, enquanto os políticos roubam descaradamente e as CPIs não dão em nada?

Será que vou morrer num país que se contenta com o assistencialismo e o paternalismo oficiais, um povo que vende seu voto por bolsa-família e por receber um botijão de gás de esmola por mês? Até quando?

domingo, 14 de setembro de 2008

Preciso de alguém (Cristiana Passinoto)

Preciso de alguém que me olhe nos olhos quando falo. Que ouça as minhas tristezas e neuroses com paciência. E, ainda que não compreenda, respeite os meus sentimentos.

Preciso de alguém, que venha brigar ao meu lado sem precisar ser convocado; alguém amigo o suficiente para dizer-me as verdades que não quero ouvir, mesmo sabendo que posso odiá-lo por isso.

Nesse mundo de céticos, preciso de alguém que creia, nessa coisa misteriosa, desacreditada, quase impossível: a amizade. Que teime em ser leal, simples e justo, que não vá embora se algum dia eu perder o meu ouro e não for mais a sensação da festa.

Preciso de um amigo que receba com gratidão o meu auxílio, a minha mão estendida. Mesmo que isto seja muito pouco para suas necessidades.

Preciso de um amigo que também seja companheiro, nas farras e pescarias, nas guerras e alegrias, e que, no meio da tempestade, grite em coro comigo: "Nós ainda vamos rir muito disso tudo" e ria muito.

Não pude escolher aqueles que me trouxeram ao mundo, mas posso escolher meu amigo. E nessa busca empenho a minha própria alma, pois com uma amizade verdadeira, a vida se torna mais simples, mais rica e mais bela.

domingo, 7 de setembro de 2008

Jogo da vida (Brian Dyson)

Imagine a vida como um jogo, no qual você faz malabarismo com cinco bolas que são lançadas no ar... Essas bolas são: o trabalho, a família, a saúde, os amigos e o espírito.

O trabalho é a única bola de borracha. Se cair, bate no chão e pula para cima. Mas as quatro outras são de vidro. Se caírem no chão, quebrarão e ficarão permanentemente danificadas.

Entendam isso e assim conseguirão o equilíbrio na vida.

Como?

Não diminua seu próprio valor comparando-se com outras pessoas. Somos todos diferentes. Cada um de nós é um ser especial.

Não fixe seus objetivos com base no que os outros acham importante. Só você tem condições de escolher o que é melhor para si próprio. Dê valor e respeite as coisas mais queridas de seu coração. Apegue-se a ela como a própria vida. Sem elas a vida carece de sentido.

Não deixe que a vida escorra entre os dedos por viver no passado ou no futuro. Se viver um dia de cada vez, viverá todos os dias de sua vida.
Não desista enquanto ainda é capaz de um esforço a mais. Nada termina até o momento em que se deixa de tentar.
Não tema admitir que não é perfeito. Não tema enfrentar riscos. É correndo riscos que aprendemos a ser valentes.

Não exclua o amor de sua vida dizendo que não se pode encontrá-lo. A melhor forma de receber amor é dá-lo. A forma mais rápida de ficar sem amor é apegar-se demasiado a si próprio. A melhor forma de manter o amor é dar-lhe asas. Corra atrás de seu amor, ainda dá tempo!

Não corra tanto pela vida a ponto de esquecer onde esteve e para onde vai.
Não tenha medo de aprender. O conhecimento é leve. É um tesouro que se carrega facilmente.
Não use imprudentemente o tempo ou as palavras. Não se pode recuperar uma palavra dita.

A vida não é uma corrida, mas sim uma viagem que deve ser desfrutada a cada passo. Lembre-se: ontem é história, amanhã é mistério e hoje é uma dádiva. Por isso se chama presente.

domingo, 31 de agosto de 2008

Amigos (Vinícius de Moraes)

Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos. Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles. A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade. E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!

Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências. A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida.

Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles. Eles não iriam acreditar. Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos.

Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não declare e não os procure. E às vezes, quando os procuro, noto que eles não têm noção de como me são necessários, de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida.

Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado. Se todos eles morrerem, eu desabo! Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles. E me envergonho, porque essa minha prece é, em síntese, dirigida ao meu bem estar. Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo. Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles.

Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim, compartilhando daquele prazer… Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e, principalmente os que só desconfiam ou talvez nunca vão saber que são meus amigos!

A gente não faz amigos, reconhece-os.

domingo, 24 de agosto de 2008

O deus mercado (Remo Bastos)

Desde o desmoronamento das economias planificadas do leste europeu e da União Soviética em 1991, a economia mundial enfrenta uma aceleração galopante no processo de abertura dos mercados nacionais de países periféricos, o qual objetiva possibilitar às transnacionais “fincarem sua estaca” nesses mercados, e a partir de “nações-chave” poderem “tomar de assalto” o mercado de cada sub-região que lhes interessar no planeta, alastrando a falência de pequenas empresas nacionais por todo o perímetro atingido pelo ataque e semeando o desemprego, a desestabilização social e a destruição da incipiente base econômica desses países.

Não é difícil compreender como se processa a investida: Os países desenvolvidos, por apresentarem uma capacidade tecnológica algumas dezenas de vezes superior à dos países periféricos (o que, por sua vez leva, obviamente, a uma maior produtividade e a um menor preço unitário por produto fabricado), ao conseguirem (via pressão diplomática ou outros artifícios menos nobres) a abertura indiscriminada dos mercados de países subdesenvolvidos, conseguem desencalhar o excesso de produtos que a exacerbada concorrência entre seus pares (países ricos) impede que sejam absorvidos inteiramente no hemisfério norte. Por esta entrada de produtos oriundos do Norte nos mercados periféricos se processar com uma inelutável vantagem competitiva para as transnacionais em relação às empresas nacionais que fabricam os mesmos produtos, estas são simplesmente esmagadas pelas transnacionais, se o governo local não as proteger com alguma tarifa de importação (ou outro mecanismo qualquer, os quais são bastante conhecidos dos países ricos, que os utilizam sistematicamente para impedir a entrada em seus mercados de produtos oriundos de países do Terceiro Mundo).

Não nos esqueçamos que a abertura sem critérios dos mercados desses países é imposta pelos organismos financeiros multilaterais (Banco Mundial, BID ou FMI, etc) como condição para novos empréstimos ou refinanciamento de sua dívida externa. Ou seja, o país periférico não tem alternativa soberana caso fraqueje, permanecendo submisso à banca internacional. Logo todo seu mercado interno estará completamente infestado pelas transnacionais, e a nação terá abdicado de gerir políticas de desenvolvimento nacional pela absoluta falta de possibilidade de controle macroeconômico, já que o centro decisório da maioria dos agentes econômicos se encontrará fora de suas fronteiras.

A concentração de poder nas mãos das transnacionais, oligopólios que controlam os principais mercados do mundo, impressiona pela descomunal abrangência: sabe-se, por exemplo, que apenas dez empresas controlam mais de setenta por cento da produção de computadores, outras dez controlam mais de oitenta por cento da indústria automobilística, somente sete empresas produzem mais de noventa por cento de todo o material de saúde vendido no mundo, e apenas oito empresas dominam mais de setenta por cento do setor petroquímico em todo o mundo. Outro dado aterrorizador consiste em que dos cento e noventa e quatro países pelo menos “formalmente” soberanos, cento e oitenta deles (quase noventa e três por cento, portanto) possuem um PIB inferior à movimentação financeira da General Motors, da Ford ou da Exxon.

Óbvio que de livre o mercado mundial não tem nada. Aliás, conforme assinalei anteriormente, a liberdade de mercado é imposta somente aos países periféricos, com vistas a se implementar o “mercado persa” das transnacionais em todo o hemisfério Sul, ou seja, a ingênua crença de que o comércio internacional irrestrito permitiria aos países mais pobres alcançar o mesmo progresso dos países ricos vai tanto contra a experiência histórica quanto contra o bom senso, e a geração de desigualdades tão crescentes ocasionará grandes encrencas futuras.

O mercado, essa instituição mitológica que, segundo a escola clássica da economia, “requentada” agora pelo neoliberalismo, resolveria plenamente todos os problemas econômicos da humanidade através de sua “mão invisível”, infelizmente na vida real funciona tal qual a “justiça cega” que impera em muitos países, que “abre um minúsculo furo na venda para ver quem lhe interessa beneficiar". Exatamente por conta deste incontornável apanágio, que lhe é absolutamente congênito e indissociável, sociedade alguma pode sobreviver completamente desprotegida deste injusto e egoísta mecanismo. Ele não é um “deus justo”, e peca por concentrar riquezas em apenas um pólo e, no fundo sabemos, todas as tentativas de lhe por freios sob um sistema capitalista mostram-se meros paliativos que em nada atingem a raiz da questão fundamental.

Assim, a situação de dificuldade econômica e social de mais de dois terços da humanidade, causada pelo egoísmo e a falta de capacidade inata do mercado, enquanto ferramenta essencialmente capitalista, de atendê-los, fala por si só. A exacerbação neoliberal, a serviço da globalização do capitalismo financeiro, tem provocado, nos países periféricos, a destruição das economias locais, as quais antes tinham pelo menos a capacidade de sustentar seus habitantes dignamente. Portanto, que fique bem claro e patente: o Estado é indispensável à preservação do equilíbrio de forças em qualquer sociedade, representando o interesse público. Tal constatação não contradiz a existência do mercado, contudo o submete às necessidades e aos interesses da sociedade como um todo, e não aos interesses de uma dúzia de grupos econômicos transnacionais.

Lamente-se a apatia da sociedade em reconhecer este ludibrio da qual é vítima, pois a luta por saúde e educação pública de qualidade, por exemplo, deixaram inexplicavelmente de ser empreendidas com vigor por quase todas as organizações sociais deste país. Este comportamento pusilânime da sociedade custará caro não somente para a geração atual, mas principalmente para as que virão.

domingo, 17 de agosto de 2008

Segurança (Luis Fernando Veríssimo)

O ponto de venda mais forte do condomínio era a sua segurança.
Havia as belas casas, os jardins, os playgrounds, as piscinas, mas havia, acima de tudo, segurança.
Toda a área era cercada por um muro alto. Havia um portão principal com muitos guardas que controlavam tudo por um circuito fechado de TV Só entravam no condomínio os proprietários e visitantes devidamente identificados e crachados.

Mas os assaltos começaram assim mesmo. Ladrões pulavam os muros e assaltavam as casas.
Os condôminos decidiram colocar torres com guardas ao longo do muro alto.
Nos quatro lados. As inspeções tornaram-se mais rigorosas no portão de entrada. Agora não só os visitantes eram obrigados a usar crachá.
Os proprietários e seus familiares também. Não passava ninguém pelo portão sem se identificar para a guarda. Nem as babás. Nem os bebês.

Mas os assaltos continuaram.
Decidiram eletrificar os muros.
Houve protestos, mas no fim todos concordaram. O mais importante era a segurança. Quem tocasse no fio de alta tensão em cima do muro morreria eletrocutado. Se não morresse, atrairia para o local um batalhão de guardas com ordens de atirar para matar.

Mas os assaltos continuaram.
Grades nas janelas de todas as casas. Era o jeito. Mesmo se os ladrões ultrapassassem os altos muros, e o fio de alta tensão, e as patrulhas, e os cachorros, e a segunda cerca, de arame farpado, erguida dentro do perímetro, não conseguiriam entrar nas casas.
Todas as janelas foram engradadas.

Mas os assaltos continuaram.
Foi feito um apelo para que as pessoas saíssem de casa o mínimo possível.
Dois assaltantes tinham entrado no condomínio no banco de trás do carro de um proprietário, com um revólver apontado para a sua nuca. Assaltaram a casa, depois saíram no carro roubado, com crachás roubados. Além do controle das entradas, passou a ser feito um rigoroso controle das saídas.
Para sair, só com um exame demorado do crachá e com autorização expressa da guarda, que não queria conversa nem aceitava suborno.

Mas os assaltos continuaram.
Foi reforçada a guarda. Construíram uma terceira cerca. As famílias de mais posses, com mais coisas para serem roubadas, mudaram-se para uma chamada área de segurança máxima. E foi tomada uma medida extrema.
Ninguém pode entrar no condomínio. Ninguém. Visitas, só num local predeterminado pela guarda, sob sua severa vigilância e por curtos períodos.
E ninguém pode sair.

Agora, a segurança é completa.
Não tem havido mais assaltos.
Ninguém precisa temer pelo seu patrimônio. Os ladrões que passam pela calçada só conseguem espiar através do grande portão de ferro e talvez avistar um ou outro condômino agarrado às grades da sua casa, olhando melancolicamente para a rua.

Mas surgiu outro problema.
As tentativas de fuga. E há motins constantes de condôminos que tentam de qualquer maneira atingir a liberdade.
A guarda tem sido obrigada a agir com energia.

domingo, 10 de agosto de 2008

Elegância (Toulouse Lautrec)

Existe uma coisa difícil de ser ensinada e que, talvez por isso, esteja cada vez mais rara: a elegância do comportamento. É um dom que vai muito além do uso correto dos talheres e que abrange bem mais do que dizer um simples obrigado diante de uma gentileza.

É a elegância que nos acompanha da primeira hora da manhã até a hora de dormir e que se manifesta nas situações mais prosaicas, quando não há festa alguma nem fotógrafos por perto. É uma elegância desobrigada.

É possível detectá-la nas pessoas que elogiam mais do que criticam. Nas pessoas que escutam mais do que falam. E quando falam, passam longe da fofoca, das pequenas maldades ampliadas no boca a boca.

É possível detectá-la nas pessoas que não usam um tom superior de voz ao se dirigir a frentistas.

Nas pessoas que evitam assuntos constrangedores porque não sentem prazer em humilhar os outros.

É possível detectá-la em pessoas pontuais.

Elegante é quem demonstra interesse por assuntos que desconhece, é quem presenteia fora das datas festivas, é quem cumpre o que promete e, ao receber uma ligação, não recomenda à secretária que pergunte antes quem está falando e só depois manda dizer se está ou não está.

Oferecer flores é sempre elegante.

É elegante não ficar espaçoso demais.

É elegante você fazer algo por alguém, e este alguém jamais saber o que você teve que se arrebentar para fazê-lo.

É elegante não mudar seu estilo apenas para se adaptar ao outro.

É muito elegante não falar de dinheiro em bate-papos informais.

É elegante retribuir carinho e solidariedade.

É elegante o silêncio, diante de uma rejeição.

Sobrenome, jóias e nariz empinado não substituem a elegância do gesto. Não há livro que ensine alguém a ter uma visão generosa do mundo, a estar nele de uma forma não arrogante.

É elegante a gentileza; atitudes gentis falam mais que mil imagens.

Abrir a porta para alguém é muito elegante.

Dar o lugar para alguém sentar é muito elegante.

Sorrir, sempre é muito elegante e faz um bem danado para a alma.

Oferecer ajuda é muito elegante.

Olhar nos olhos ao conversar é essencialmente elegante.

Pode-se tentar capturar esta delicadeza natural pela observação, mas tentar imitá-la é improdutivo. A saída é desenvolver em si mesmo a arte de conviver, que independe de status social: é só pedir licencinha para o nosso lado brucutu, que acha que "com amigo não tem que ter estas frescuras". Se os amigos não merecem certa cordialidade, os inimigos é que não irão desfrutá-la.

Educação enferruja por falta de uso.
E, detalhe: não é frescura.

domingo, 3 de agosto de 2008

Vencedores e derrotados (Autor desconhecido)

Quando um VENCEDOR comete um erro, diz: “Enganei-me“, e aprende a lição.
Quando um DERROTADO comete um erro, diz: “A culpa não foi minha“, e responsabiliza terceiros.

Um VENCEDOR sabe que a adversidade é o melhor dos mestres.
Um DERROTADO sente-se vítima perante uma adversidade.

Um VENCEDOR sabe que o resultado das coisas depende de si.
Um DERRROTADO acha-se perseguido pelo azar.

Um VENCEDOR trabalha muito e arranja sempre tempo para si próprio.
Um DERROTADO está sempre "muito ocupado" e não tem tempo sequer para sua família.

Um VENCEDOR enfrenta os desafios um a um.
Um DERROTADO contorna os desafios e nem se atreve a enfrentá-los.

Um VENCEDOR compromete-se, dá a sua palavra e cumpre.
Um DERROTADO faz promessas, não se esforça e quando falha só sabe se justificar.

Um VENCEDOR diz: "Sou bom, mas vou ser melhor ainda".
Um DERROTADO diz: "Não sou tão mau assim; há muitos piores que eu".

Um VENCEDOR ouve, compreende e responde.
Um DERROTADO não espera que chegue a sua vez de falar.

Um VENCEDOR respeita os que sabem mais e procura aprender algo com eles.
Um DERROTADO resiste a todos os que sabem mais e apenas se fixa nos defeitos deles.

Um VENCEDOR sente-se responsável por algo mais que o seu trabalho.
Um DERROTADO não se compromete nunca e diz sempre: “Faço o meu trabalho e é quanto basta”.

Um VENCEDOR diz: “Deve haver uma melhor forma de fazer isso...”.
Um DERROTADO diz: “Sempre fizemos assim. Não há outra maneira.”.

Um VENCEDOR é PARTE DA SOLUÇÃO.
Um DERROTADO é PARTE DO PROBLEMA.